14.5.15

Diário de Bordos - Isla San Andrés, Colômbia, 14-05-2015

O luto da travessia está feito, ou quase. Agora trata-se de olhar para a frente: reparar o pau de bujarrona, o hidráulico do leme e a transmissão; manter a tripulação unida e - sobretudo - a bordo; conhecer San Andrés melhor do que conheço.

Mais uma pequena mudança de planos: afinal o refit não será no México, mas na Guatemala, no Rio Dulce. Nunca lá estive, mas parece óptimo e é uma excelente base para conhecer a América Central.

A ver se se confirma. A ver se este cansaço me deixa.

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Estamos em San Andrés pelas três grandes razões mencionadas ali em cima e por mais um par delas pequenas. É assustador. Hoje tentei fazer cartões de visita e até isso é complicado.

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Acordei mais cedo do que o habitual: eram duas e meia da manhã. Força seis ou sete, o pobre do W. urrava, silvava, arfava. Passei mais uma adriça à borda falsa.

Depois fui deitar-me outra vez, mas às seis já estava a arrumar o convés, passar uma forra no snubber (alguém me ajuda?) e fazer ovos estrelados com bacon, que não deve estar longe de ser o melhor pequeno almoço deste mundo e do outro.

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A liberdade paga-se. Não são precisas grandes elocubrações sobre os abismos e respectivas atracções, teorias psicológicas de mercearia ou sequer olhares de esguelha e meio-sorrisos entendidos. Aquilo tem tem um preço e caro.

Um gajo não é livre porque quer: é livre porque não pode não o ser. Fatalidade, destino, droga a liberdade. Uma prisão, no fundo. A melhor de todas as prisões, a única suportável, mas uma prisão.

Pensava nisto esta noite, enquanto ouvia os gritos do W. Conversava comigo (só eu o entendo. Os tripulantes não falam barquês, ou marês ou seja que língua for a que as embarcações usam para falar com quem as entende).

Na verdade o W. tem várias formas de conversa. Faz-se ouvir e dá-se a ver: um tanque de água que devia estar vazio e seco e não está - de onde vem a puta da água? - um monitor de baterias cujos dados me fazem pensar que andam por ali drogas alucinogéneas, peyotl do Castaneda ou LSD dos outros todos, um motor que larga óleo como alguns imbecis arrotam depois de jantar.

E gosta de silêncios, o bicho: o braço hidráulico não se ouve, a transmissão tão pouco.

Parece um poço de problemas, mas não é: é um poço de liberdade. Ou não é só, vá lá.

(Isto dito só me apetece tirá-lo da água e deixá-lo em seco até ele me implorar de joelhos que o volte a pôr no seu lugar e me prometer que se portará bem).

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"But when the melancholy fit shall fall...
...then glut thy sorrow...
...on the rainbow of the salt sand-wave...

Or if thy mistress some rich anger shows...
Emprison her soft hand, and let her rave,
And feed deep, deep upon her peerless eyes."

Keats, Ode à Melancolia.