31.5.15

Mais uma reedição - Mundo flutuante

Viva a preguiça.

Poemas no mundo flutuante

Que me perdoem as feministas e os talibans da língua, mas uma mulher condutora de eléctricos é uma wattmanWattwoman seria, quando muito, uma personagem de Beckett.

Não é por aqui, eu sei, que devia ter começado a história. Assim não faz sentido. Eu vinha para casa no 15.

Melhor assim. Eu vinha para casa no 15. A wattman (uma jovem bonita, de longos cabelos pretos e sorriso claro) anunciou uma paragem. E logo a seguir, sem qualquer transição, começou a dizer Wasteland:

"April is the cruelest month, breeding
Lilacs out of the dead land, mixing
Memory and desire, stirring
Dull roots with spring rain.
Winter kept us warm, covering
Earth in forgetful snow, feeding
A little life with dried tubers.
Summer surprised us, coming over the Starnbergersee
With a shower of rain; we stopped in the colonnade
And went on in sunlight, into the Hofgarten,
And drank coffee, and talked for an hour.
Bin gar keine Russin, stamm' aus Litauen, echt deutsch.&
And when we were children, staying at the arch-duke's,
My cousin's, he took me out on a sled,
And I was frightened. He said, Marie,
Marie, hold on tight. And down we went.
In the mountains, there you feel free.
I read, much of the night, and go south in winter.


A maioria dos passageiros reconheceu-o imediatamente; claro. Estávamos todos siderados: a senhora dizia o poema num inglês primoroso, oxoniano, de cor. "Winter kept us warm", por exemplo; saiu perfeito. Podíamos ver o inverno do qual acabamos de sair (um bocadinho aos soluços, reconheça-se) e pensar "sim, estamos quentes".

Quando chegou a "I read, much of the night, and go south in winter" foi a apoteose. Levantámo-nos todos, batemos palmas calorosamente, e continuámos:

"What are the roots that clutch, what branches grow
Out of this stony rubbish? Son of man,
You cannot say, or guess, for you know only
A heap of broken images, where the sun beats,
And the dead tree gives no shelter, the cricket no relief,
And the dry stone no sound of water.


Foi muito bonito; a jovem senhora conduzia e dizia o poema ao mesmo tempo. Nós estávamos embalados: de pé, agarrados uns aos outros, declamávamos ao ritmo dos carris e dos abanões do eléctrico (que são, devo dizer, um dos seus grandes encantos) braços pelos ombros uns dos outros; "Who is the third who walks always beside you?" e olhávamo-nos para saber quem eram os terceiros.

Não havia terceiros. Nunca ninguém enganou ninguém naquele veículo. Celebraram-se vários casamentos entre Alcântara e a Praça da Figueira (enfim, dois; a verdade é mais pequena quando usamos números em vez de adjectivos, vá lá saber-se porquê) e nenhum divórcio. C'est dire.

Quando chegámos à Praça de Figueira desci e fui cumprimentar os pedintes, toxicómanos,skaters e prostitutas que por lá passam os tempos livres (ou ocupados, neste último caso, que esperar por um cliente também é trabalho, diga-se o que se disser). Nada disto teria importância se fosse frequente. Mas não é. Raramente apanho wattmen ou condutores de autocarro que conhecem Eliot. O mais das vezes ficam-se por Ary dos Santos, Natália Correia ou mesmo Manuel Alegre, não desfazendo.

Wasteland num dia de sol como hoje, com os passageiros numa inacreditável comunhão espiritual foi um dos grandes momentos da minha vida. Por isso não fui para casa e acabei a festejar no bar da Lourdes. Não sei se conhecem. É um bar do mundo flutuante, no primeiro andar de um edifício que agora é uma catedral mas antigamente era uma cervejaria, ou uma tipografia, ou assim. Confundo muito as coisas, coitado de mim. Por exemplo: confundo-te com um tall ship, e contudo sei que não passas de uma chata. Já com a Lourdes é ao contrário: parece uma chata e é um tall ship.

Bom, isto tudo para dizer que hoje comprei umas bocas-de-leão, pujantes, lindas, virginais (não sei porque as acho "virginais". Acho que gosto do som). Foram-me aconselhadas por uma senhora por quem não estive apaixonado nem dois meses, ou três. Deviam mudar-lhes o nome para "bocas-de-leoa", mas reconheço que isso é apenas porque gosto de leoas, sempre gostei, desde pequenino - coisas da mãe, de certeza; e porque cada vez que olho para elas tenho vontade de lhe voltar (refiro-me à senhora, naturalmente; não à mãe) para os braços, ou as garras, ou os dentes, ou os olhos, ou o sorriso, ou o humor, ou a pele. Não sei. Não sei nada, nunca. Nunca mais saberei nada. Mau.

Enfim. Já alguma vez apanharam um piloto de cacilheiros que recitasse um poema de Miguel Serras Pereira que é assim:

"Para fazer pairar
ao longe e ao alto
um tremular de mastros
na solidão do olhar

e para rasgar no corpo
a seara antiga
onde o tempo amou
e me deitará contigo

é que escutei na sombra
a vibração sem voz
da tua voz nas ondas
onde ecoa a morte
" ?

Há um ou dois, só, e não é muito fácil ter a sorte de atravessar com eles o Tejo. Logo a seguir há outro poema,

"O navio é o mar a bordo de quem nasce
a bordo de quem morre o mar é o navio

Jamais os dois navios porém se reconhecem
Olhe-os quem morre ou nasce

ou só o mar ainda
de que outros insistentes olhos de ninguém?
"

Há outros, mas os pilotos dos cacilheiros não os conhecem todos, sobretudo se estiver um dia de verão e a embarcação estiver cheia de suecas a caminho da Caparica. Tudo o que flutua é um mundo, mas o mundo não flutua. E as suecas tendem a fazer-nos esquecer a poesia; a nós e aos pilotos de cacilheiros, claro. Já quanto ao peso do mundo não sei se têm influência.

Depois é isto. Olho em volta e só oiço música. Escuto, e só vejo o mundo. Estendo a mão e ninguém a colhe. Regresso a Thomas (de onde nunca devia ter saído, há tanto tempo):

"Here in this spring, stars float along the void;
Here in this ornamental winter
Down pelts the naked weather;
This summer buries a spring bird.
...
"

Ou

"...
Seaports by a drunken shore
Have their thirsty sailors hide him
...
"

Dylan sabia o que é uma costa bêbeda, ou um marinheiro sedento. Eu não. Sei de ti, um pouco. Tomara não saiba mais. Sei de muitas outras. Sei de momentos que nos mudam o rumo (como se tivéssemos um rumo. Enfim. Isso é outra história). Sei de vidas que mudam por causa de um momento. É verdade. Sei de momentos que perduram uma vida (tenho dois desses, entre muitos outros). Sei de momentos que explicam uma vida. Sei de vidas que procuram momentos.

Sei de eléctricos onde se ouve Eliot; de cacilheiros de onde se vê o mundo; de pessoas com quem se reconstrói o universo; pouco mais.

(Para a Mariana e o Lourenço, como se. Com um beijo e dois abraços).