16.6.15

Diário de Bordos - Bocas del Toro, Panamá, 14 a 16-06-2015

Pergunto-me de novo se é uma vida e de novo respondo "Não. É a vida. A única. A que tenho, sei e posso viver. Não vale a pena mudá-la".

À primeira quem quer cai; à segunda cai quem quer. Caí a segunda e, não por coincidência, em Bocas. As razões são as mesmas e uma delas nunca mudará: não me interesso o suficiente por dinheiro para tomar precauções.

Regresso a Bocas com o W. e acabo de receber metade do que pensava e devia; e mesmo isto depois de muita discussão, ameaças e gritos. Há tempos perguntava-me se T. é só forreta, ou se o é patologicamente. Agora sei. Não é só patológico: é também desonesto.

Não vale a pena elaborar.

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"Tiveste um bom dia?", pergunta-me Gerardo, do Palmar. "Não sei", respondo e fico-me por ali. O dia começou bem: um banho às seis da manhã na praia deserta, o dia a nascer, beleza por todos os poros.  Depois do pequeno-almoço percorri a praia de uma ponta à outra. Já o sol ia mais alto, claro; mas a beleza era a mesma. Outras cores, ou outros tons nas mesmas cores.

No Palmar não há telefone nem net. Venho para Bocas e recebo uma notícia. Esperada, mas devastadora. Depois da qual não há nem boas nem más notícias, não há nada se não uma necessidade imperiosa de voltar para Lisboa o mais depressa possível, de mudar os planos que eram, eles também, consequência de uma mudança de planos.

Não vale a pena elaborar.

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Bebi The Sense of an Ending, de Julian Barnes de um trago só. Penso nos Satanic Verses, no The Sea, The Sea, no There But For The, que recentemente li; em todos os livros excepcionais que até hoje fizeram o meu mundo mudar e eu com ele e penso que é uma das coisas que devo à vida: livros de tirar a respiração, de reler mal se acabam de ler, de nos fazer amar as palavras e esquecer a merda que elas por vezes trazem.

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"The sea has many voices", diz TS Eliot. Mudam consoante o lugar de onde as ouvimos. Estas duas últimas noites ouvi-o das tendas do Palmar, onde pela primeira vez durmo.

O Palmar Tent Lodge tem um estranho filtro à entrada: deixa entrar pessoas mas não os problemas. Estes ficam à porta. E se por acaso um deles consegue esqueirar-se lá para dentro deixa de ser um problema e transforma-se imediatamente numa solução.

À noite ouvem-se uma das vozes do mar e as inúmeras da selva. Só há um outro lugar no mundo que tem em mim este efeito: a península de Burton, no Lago Tanganyka. Felizmente a Isla Bastimentos é mais acessível.

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Cheguei a Bocas del Toro âs duas e meia da manhã. Até uma hora antes tive uma daquelas noites que explicam porque gostamos de navegar e porque é tão bom fazê-lo sozinho: zero nós de vento, céu completamente limpo, estrelas e planetas tão próximos que pareciam luzes de uma cidade invertida que eu sobrevoava por baixo. Que eu subvoava...

Acabei a manobra de fundear às três e meia e fui dormir.

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Estou numa espécie de corrida que não tem vitória possível. A puta ganha sempre. É uma dor que a humanidade sente desde que deixou de ser constituída por macacos e começou a ser formada por homens. Mas não tem remédio: nãao há aprendizagem nem experiência que valham.

Não há ninguém que ela poupe. E nunca estamos tão sós como quando é a nossa vez.

(Isto dito agradeço à Sofia a ajuda, o trabalho, o esforço, a dedicação, o carinho).

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Não sei se ganho se perco nas transacções com a vida; sei que há uma conta na qual ela me está devedora: sempre fui mais bem amado do que amei.

É altura de acertarmos contas, vida.