12.6.15

Diário de Bordos - Isla San Andrés, Colômbia, 11-06-2015

Hoje é a minha última noite em San Andrés, se tudo correr bem. Enfim, não espero que corra tudo bem; peço apenas que não corra tudo muito mal. Normalmente mal já chega para não ter de voltar. Afinal são cento e noventa e três milhas: quarenta e oito horas a quatro nós, menos seis a quatro e meio e mais sete a três e meio. Dois dias passam depressa, e se o vento se mantiver só vou precisar do motor um deles.

É espantoso como há pessoas que preferem barcos a motor. Nada mais seguro do que um mastro e uma vela. Desde que haja vento, claro. Coisa notoriamente ausente da costa atlântica do Panamá.

"On s'en fout. De toute façon on n'est pas d'ici. Demain on s'en va".

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No Beer Station a má música foi substituída por futebol. Dos dois prefiro aquela. Este é uma demonstração dos abismos de idiotia aos quais se pode chegar - com a melhor das intenções, reconheço. Mas idiotia na mesma - . O jogo é entre o Chile e o Ecuador.

Resisti um bom bocado. Agora oiço Milton Nascimento: o Milagre dos Peixes. É um dos melhores discos de música brasileira que conheço. E se não, é pelo menos um dos que gosto mais. Apreciações que nem sempre coincidem, eu sei. Mas reivindico na mesma.

Poderia ouvir My Spanish Heart, de Chick Corea. Não anda lá muito longe. Ou, num registo diferente, a música da Ana Cordeiro Reis, tão linda, majestática, profunda.

Na verdade preferia que o vento amanhã caísse. Há pouco quando saí de bordo andava outra vez nos vinte e cinco nós. No lugar em que estou com quinze é difícil sair. Com vinte um daqueles impossíveis que tentamos porque as circunstàncias o exigem. Com vinte e cinco nem sonhar.

Me traes un mojito sin azúcar, porfa?

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Acabei por não dar a volta à ilha, coisa que vou creditar aos meus defeitos. E não ir comer à cooperativa de pescadores. E um monte de outras coisas, um monte de outros defeitos.

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Vou para o mar numa embarcação na qual hesitaria em atravessar o Tejo. Mas há pelo menos uma coisa boa: vou sozinho. Não ter de me preocupar com mais ninguém é uma paz de espírito.

Tal como poder andar vestido da maneira que quero, claro.