27.6.15

Reedição - Palavras, silêncio

As palavras vêm ao pôr-do-sol como corvos: o vinho do almoço, a lembrança da última noite que passámos juntos, o mar de Bequia, um rum bebido algures entre as Grenadines e Grenada, com a praia à vista. Palavras, nada mais do que palavras: um "pôr-do-sol", por exemplo, são três delas, ligadas por hífens; "rum" é uma palavra só (já "noite que passámos juntos" são milhares: as que se dizem e as que não). Uma noite no mar das Caraíbas, numa ilha grega, na Irlanda, num planalto africano, num corpo amado: misturas de ar, cordas vocais e células. Nada mais.

Nas ruas passeiam-se milhares de solidões piores do que as nossas - isto é: mais "solidões", mais solitárias, mais "sem ti"-. Contigo uma solidão não passa de aparência: moras no silêncio como moras em mim.

"Corvo" também é uma palavra: negra, alada, grasnante - mas palavra -. Não sei que fazer com elas, as palavras: grasnam como corvos ao pôr-do-sol, carregadas de hífens e de tempo e de memória, como se a memória fosse mais do que uma palavra. E não é: "memória" é uma palavra, ponto - como aquelas que eu usava para te dizer "amo-te" (palavra, só palavra); "quero-te"; "futuro"; etc...-

Somos feitos de palavras; são elas que nos dizem, e não - como ingenuamente pensamos - nós que as dizemos; somos um sopro entre cordas vocais - e essa coisa da alma não passa de uma ilusão auditiva: "alma" -.

"Tocar-te"; "amo-te"; "a tua pele"; "navegar-te porque és um mar, o mar de «amar»"; "amar-te porque és um mar, o mar de «oceano»"; "amar-te porque és o vento, o vento de «futuro»"; "amar-te porque és o silêncio": palavras, nada mais do que palavras. Como "sentimento": tetrassílabo, grave, substantivo. Ar. Palavra.

Vinho, por exemplo, é uma palavra: tinta, encorpada, adstringente, taninada, equilibrada. Fátima é outra: loira, sorridente, esguia, sensual. Mar: azul, infinita, bela, interminável, envolvente. Amor: tu. Palavras, tudo. Só palavras.

E silêncio, quando te ris e me amas.