21.7.15

Diário de Bordos - Alvaiázere, Portugal, 21-07-2015

S. ofereceu-me um bloco-notas. É muito bonito, é mais do que muito bonito. Inauguro-o no café-restaurante do Zé da Praça enquanto oiço o Telejornal e penso que das duas uma: ou o advogado de Sócrates é bom e as coisas estão pretas para aquelas bandas; ou as coisas estão pretas porque o advogado é mau.

Depois lembro-me de José Miguel Júdice: "Portugal é um país de merdosos". E tontos, acrescento. Hoje comprei queijos "em óleo". "Prefiro em azeite", digo à senhora que mos vende. "Não se pode. Não é permitido. O azeite pode rançar".

Não sei se é verdade. A ser há pessoas - pagas com os nossos impostos (posso dizer isto. Pago IVA) - que nos protegem do azeite rançoso. Quero ser protegido dessas pessoas. Basta proíbi-las de trabalhar. Mandá-las para casa com o salário inteiro. Seriam menos nefastas de que à solta e - presumo - convencidas de que estão a trabalhar para o bem público.

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O Alvabar é feio, mas é o único bar em Alvaiázere e por isso deixa de ser feio. Não se pode aplicar o mesmo raciocínio às miúdas: nunca são as únicas e se fossem não deixariam de ser o que são: gordas, magras, bonitas ou feias, inteligentes ou burras, sarcásticas ou coitadas.

O equivalente do Alvabar em Mértola é muito mais bonito. Mas - isto é um facto, não uma opinião - Mértola é mais bonita do que Alvaiázere.

Facto sim, mas injusto, como a maioria deles: é pouco provável que haja muitas vilas mais bonitas do que Mértola. Por causa do rio e da arquitectura, suponho. Aqui não há rio, há serra. Não é a mesma coisa. E não há arquitectura.

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[Informação relevante: o dono do Alvabar também se chama Luís.]

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Novidades.

Dormir tapado, fazer amor no bosque.

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"Está uma noite fixe", diz Luís, o dono. "Sim, está. Que sorte vivermos num planeta que tem um satélite, não é?" respondo. Mas para dentro, não para ele. De qualquer forma está muito longe e não se dirige a mim quando fala.

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Como responder a pergunta alguma enquanto não responder à única que conta: nómada ou sedentário?

[Pode ser-se as duas coisas ao mesmo tempo, por favor?]

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Não devia dizer-te isto em público, eu sei (nem sequer em privado. Já mo proíbiste várias vezes). Tenho vontade de ti. Quero ir para a cama contigo e dela sair contigo também.

Chato, não é? (Ter vontade de alguém não: é bom, são, sinal de saúde como a fome ou a sede. Chato é não poder dizê-lo).

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Ser feliz é um atalho para a morte. Um atalho feliz, faut-il le dire?