22.7.15

Diário de Bordos - Alvaiázere, Portugal, 22-07-2015

Às quartas-feiras há mercado e feira, ao lado. As sardinhas estavam bonitas, frescas e viçosas. Os chocos também, cheios de tinta. Não comprei nada, não me apetecia ter de voltar a casa e preparar aquilo tudo. Fui almoçar ao Zé da Praça, onde tinha o resto da garrafa de vinho de ontem.

Quero comer peixe, mas o prato do dia é cozido.

Vou precisar de fazer alguns duzentos quilómetros de bicicleta para apagar estes excessos todos.

Comprei tremoços em barrela de cinzas. Nunca tinha ouvido falar disto. A senhora explicou-me como se faz: só se pode usar um tipo de cinzas, de oliveira. As outras deixam os tremoços "negros, negros". Põem-se as cinzas numa meia de mulher e deixam-se cozer com os tremoços quinze minutos. Ficam "corados" (cor-de-laranja intenso) e saborosos. Aprendi o nome de uma profissão: tremoceiro. Ou tremoceira, neste caso: é a avó da senhora jovem que mos vendeu quem os prepara.

O Zé da Praça está cheio. Só locais. Se estivesse em África seria o único branco no restaurante.

Não admira, o cozido está excelente. É difícil falhar um cozido: se o que entrar for bom o que sai é óptimo; caso contrário é péssimo. Gosto da cozinha portuguesa por causa disso: é pouco sensível a habilidades. Se bem as haja, claro; e as aceite.

Um bom cozido prenuncia invariavelmente uma boa sesta.

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Há muitos anos havia no Bairro Alto um restaurante chamado Baralto, cuja especialidade eram lulas recheadas. Nele trabalhava uma jovem chamada Paula (suponho: tratávamo-la por Paulinha) que chegara havia pouco do campo. Tinha as faces rosadas e o sorriso genuíno mas contido. Era muito bonita. A senhora que hoje me serve trouxe-me a Paulinha à memória. Algumas coisas nunca mudam. É tão bom, não é?

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Se palitar os dentes não fosse tão agradável não seria, naturalmente, "proibido". Aqui não é só uma questão de ser bom. É que faz parte. Se não palitasse os dentes metade da sala olhar-me-ia com desprezo (isto naturalmente se metade da sala se preocupasse comigo) e pensaria que sou pedante ou venho de famílias ricas e necessito de assertar as minhas origens sociais e exibir a educação (que não tenho mas poderia ter) e ficaria tão isolado como se fosse o único branco num restaurante africano (preto foi banido do léxico aceitável).

Quem me traz os palitos é o senhor Zé ele mesmo. Vêm embrulhados num invólucro individual. Faço uma observação qualquer e o senhor Zé responde. Começámos nos palitos, passámos pelo trabalho infantil ("comecei a trabalhar aos onze anos e não fiquei enfezado"), passámos pela dívida pública "estas modernices modernas (sic): uma criança nasce e já deve trinta mil euros").

Não sei se são trinta mil euros, senhor Zé. Mas espero que isto mude e deixemos de criar uma geração de alérgicos e indefesos. Se não, qualquer dia estamos a importar anticorpos do Benim.