23.7.15

Jornal de Bordos - Alvaiázere, Portugal, 23-07-2015

Não é bem que a rapariga seja feia. Não é, quando se consegue descortinar por detrás do que está à vista. É só que exala mau-gosto da ponta do penteado à ponta das unhas dos pés. Um mau-gosto profundo, camadas sedimentadas de mau-gosto, gerações de mau-gosto. Não há um milímetro quadrado naquele corpo que não esteja coberto de mau-gosto (é tanto que inclui a pele, coitada).

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Não sei bem como medir a importância de uma povoação - se pelo número de habitantes se pelo de rotundas -. Aquele está em franca diminuição; este aumenta. Escolhamos o optimismo: moro numa vila de trinta rotundas. Trinta? Que sorte. A minha só tem vinte e quatro. E assim por diante.

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Hoje aventurei-me de novo pelos caminhos de terra. É a segunda vez. Ganhei um pneu furado, claro e uma hora de prazer intenso. Pensei nas minhas aventuras todo-o-terreno do Burundi e do então Zaire, mais conhecido por desaire.

Todo-o-terreno é uma maneira de dizer: havia sempre um purista para explicar que aquilo era todo-o-caminho (tout le chemin no original. Por uma razão que desconheço os puristas têm uma forte propensão para a nacionalidade francesa). Era preciso distinguir o tout-le-chemin do tout-le-terrain).

(Eu distinguia-os, mas não por palavras: quando tinha de ir mesmo para fora das estradas levava o Nissan; quando era para ficar pelos caminhos ia com o Toyota, muito mais confortável e menos macho).

Era nisso que pensava hoje enquanto pedalava deliciado por estes caminhos ladeados de oliveiras, cheios de sombras e dos quais não se tem vonatde de sair, a menos que uma razão muito forte nos a isso obrigue. (A razão era a chegada iminente de uma família francesa, por sinal bastante simpática).

Pouco me surpreende - isto é o resto das minhas reflexões - a falta de vontade ou necessidade de conduzir. Vivo bem sem carta de condução. Depois dos chemins e dos terrains africanos quem tem vontade de se chatear por estas estradas alcatroadas, sinalizadas, mantidas à perfeição, doentias de tão aborrecidas?

Felizmente o pneu aguentou até casa.

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Parto em breve para a Escócia para um breve transporte de quatro dias, de Inverness para um porto qualquer no sueste do Reino Unido. Eu sei que não se pode ter tudo, etc. Mas dias como o de hoje fazem-me duvidar tanto dessa verdade tão verdadeira (e tantas vezes confirmada)...