3.8.15

Diário de Bordos - Inverness, Escócia, Reino Unido, 03-08-2015

A perspectiva de passar quase onze horas num aeroporto não predispõe ao bom humor, claro. Se esse aeroporto for o de Gatwick não só não predispõe ao bom humor como esvazia o que dele resta. Quase, na verdade: é muito e os truques antigos e conhecidos: percorrer o aeroporto todo (com o saco, o check-in só abre quatro horas antes da descolagem), estudar cuidadosamente os possíveis refúgios para o dia, escolher um deles, gozar com a doce incompetência dos ingleses (e pensar que ela não os impede de ser um grande povo, se bem não o trocasse pelo meu nem por meia dúzia de outros que conheço por esse mundo fora).

Uma vez escolhido o ou os sítios regresso a eles, sento-me no primeiro, percorro a net, penso no que vou fazer - mas penso só, não faço mais do que isso - leio o FB, e os raros mails que me chegam, trabalho um bocadinho, bebo cafés duplos uns atrás dos outros (cafés duplos merecia aspas. Só não as leva porque a partir do segundo descobri que a senhora atrás do balcão é portuguesa e a partir desse momento comecei a ter direito a baldes de café e não mais a chávenas praticamente vazias -) Enfim, mastigo o tempo como se ele fosse um bocado de carne dura.

Depois vou almoçar, sento-me no outro sítio que tinha visto durante a repérage (é mesmo à frente do primeiro) trabalho mais um bocadinho, começo a planear a viagem, chateio-me com a previsão meteorológica (mas pouco: podia ser muito pior).

Enfim, mastigo o tempo e ele deixa de ser carne dura e amanhã só me lembrarei do tempero.

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Escrevi o que precede em Gatwick. O resto perdeu-se, para sorte de quem o leria.

O tempo piorou, claro. Tinha previsto largar hoje à tarde, com a maré; se conseguir largar antes de quarta-feira já ficarei bastante satisfeito. Está frio e chove; sinto-me num inverno algarvio.

Decidimos alugar um automóvel e ir passear. É a coisa mais sensata a fazer. O bote está pronto para a viagem; entre escrever tonterias e ir ver paisagens bonitas prefiro a escolha é fácil.

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Um dos tripulantes não vai ter tempo de fazer a viagem toda. Vou desembarcá-lo a meio. São os dois porreiros. Um cozinheiro reformado e outro engenheiro de telecomunicações.

O cozinheiro não se importa nada que seja eu a cozinhar. Ontem improvisei um frango; hoje vai ser frango outra vez, mas em leite de coco. Não é propriamente uma improvisação.

Sacana do tempo.

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Não há carros. Vamos de camioneta.