2.9.15

Pessoas: vida e superfícies

A rapariga que estava a chorar já não está. O rapaz tentava consolá-la mas de uma forma tímida, distante. Devia estar a acabar o namoro com ela.

[Não sei. Já tive uma namorada que acabou comigo enquanto chorava como uma comporta que se abre. Confesso que na altura não percebi. Agora percebo, mas pouco importa]. A verdade é que a rapariga estava a chorar, o rapaz tentava consolá-lá ma non troppo, uma amiga deles chegou e agora a miúda está sorridente e leve. As mulheres ficam bonitas depois de chorar, é uma chatice.

O rapaz tem cara de parvo, coitado. Suponho que não pode, não sabe ou não quer fazer nada a esse respeito.

A amiga chegou - o mais bonito par de pernas que vi nos últimos cinquenta anos, pelo menos nas pernas que vi vestidas (vestidas neste caso é um exagero ou um lamento) -; bebeu um café e foram -se os três embora.

Mas isto passou-se a duas mesas da minha. Era um filme mudo.

Na mesa ao lado a peça era diferente. Uma jovem senhora - meia dúzia de anos mais velha do que a anterior - fala com uma (provavelmente) amiga mais velha, feia e gorda do que ela. Deve ser o calvário das amigas mais velhas feias e gordas, ter de ouvir os dramas de amor das outras, as jovens bonitas e magras.

É um drama, um verdadeiro drama. [São colegas: a mais nova trata a outra por você e conta-lhe pormenores da família que a outra conheceria se fossem amigas]. Se tivesse de lhe adivinhar a profissão diria que é psicóloga ou médica, apesar das unhas pintadas de verde. A conversa é sobre um homem que lhe ofereceu um anel de noivado e depois (muito depois? Pouco? Não sei) não lhe respondeu ao telefone "para não pagar roaming". A mulher ficou escandalizada. [Nunca recusei uma chamada por causa dos custos de roaming. Fico contente por ver esta opção validada por uma jovem desconhecida, bonita e faladora que provavelmente ignora que quem não recusa chamadas por causa do roaming é capaz de gastar dinheiro descontroladamente nas coisas mais estranhas].

A mais velha quase não fala. A outra ocupa o espaço todo. Eu fujo dele e regresso por episódios. Agora estamos num colega que se apaixonou por ela. Tenho pena de me interessar menos pela vida das pessoas do que pelas pessoas propriamente ditas. Andam juntas, não andam?

Não são colegas. Se eu estivesse mais atento conseguiria descobrir o que fazem, cada uma delas - ou pelo menos a que fala - e qual a relação entre elas. Assim não: fico-me pela cara, muito bonita; pelos brincos, intrigantes; e pelas unhas, verdes.