3.9.15

Cuidado

De manhã todo o cuidado é pouco, não chega. É de manhã que dizemos às senhoras coisas que depois se revelam verdadeiras. Coisas nas quais elas acreditam. Até nós acreditamos (por isso são verdade, de resto).

Dizemos e fazemos. Imagine o leitor por exemplo  (é um exemplo) que está no Porto e vai - naturalmente - à livraria Poetria. A livraria está fechada, mas à frente há uma loja de flores. De flores bonitas, viçosas, acrescente-se. Compra uma flor e oferece-a a uma senhora. Nada a dizer. É de tarde, o dia foi bom, é natural que se compre e ofereça uma flor.

Se fosse de manhã seria diferente. O leitor saiu de casa para ir comprar o jornal e beber um café. Passa à frente da florista da esquina. Está fechada, claro. É cedo. Vai ao quiosque do senhor Mário (por exemplo) e compra os jornais diários: Diário de Notícias, Público, Negócios  (o Económico não). Lê as notícias, as crónicas. Tenta não pensar na senhora jovem e nua que deixou em casa a dormir, de barriga para baixo, nas nádegas, nas pernas, nos cabelos espalhados pela almofada. Acabada a leitura e bebidos os cafés volta para casa. A temperatura subiu, o ar está cálido, menos picante e estimulante do que há pouco. A florista abriu. O leitor entra e compra uma flor. "Como se fosse a passar pelo jardim, a tivesse colhido e fugido a correr ", diz à senhora para lhe explicar porque não a quer embrulhar.

Em casa a jovem ainda dorme. O leitor pousa-lhe a flor ao lado. Será a primeira coisa que ela verá ao acordar. Vai para a cozinha escrever-lhe um bilhete.

Todo o cuidado é pouco.