1.9.15

Jim, outra vez

- Ich liebe dich, ya lublu tibia, ti amo, amo-te, I love you, je t'aime, te quiero... Não sei em quantas línguas já menti. - Jim estava pensativo. Paola dormia no camarote de vante, para onde ele despachava as miúdas depois do sexo. "Não gosto de acordar ao lado de uma mulher", explicou-me um dia. "É de manhã que lhes dizemos mais disparates".

- O pior nem sequer é eu ter-lhes mentido. É te-lo feito sem necessidade nenhuma. Noventa por cento daquelas a quem o disse dispensavam - e dispensaram - o meu amor; as outras dez por cento nem sequer se deram ao trabalho de fingir que acreditavam.

- Não percebo nada do que me estás a dizer, Jim. O amor é uma prisão da qual há muito tempo fugi.

Jim tinha feito parte de um grupo de teatro amador na faculdade. Nunca perdeu o gosto pelo efeito dramático nem pelo solilóquio. A verdade que lhe interessa é, diz-me "a verdade ficcional". A outra é "árida e desinteressante como um espelho".

Há dois anos que é meu tripulante, há dois anos que o vejo levar miúdas para bordo como se as trouxesse do supermercado e nunca lhe ouvi o mais pequeno arroubo sentimental. Nunca o ouvi dizer amo-te a quem quer que seja, fosse em que língua fosse, de manha à tarde ou à noite.

Paola conseguira visivelmente arrancar-lhe palavras. Mas não as que ele queria.

- É a densidade, percebes? Gosto de mulheres mais pesadas do que o ar.

A analogia fez-me sorrir: entre as dezenas de mulheres que vi entrar a bordo nestes dois anos havia feias, bonitas, altas e baixas, loiras morenas ou ruivas, com ou sem sardas - mas não havia uma única gorda. É no Brasil que se chama avião a uma mulher bonita, não é? Talvez. Não sei. Vou beber café, pensar nas metáforas de Jim e começar a procurar outro tripulante. Não me apetece nada ficar aqui parado por causa de um linguista / piloto amador / poliglota apaixonado.