25.10.15

"Passaste perante o mundo..."

É curioso ver num texto da época romana (citado por Jacques Rancière em "Courts voyages au pays du peuple") uma crítica que faço à esmagadora maioria dos músicos portugueses (há excepções. Poucas mas há):

"Passaste perante o mundo sem que o mundo se tenha reflectido em ti, sem que ele se tenha imprimido em ti com caracteres vivos. Não há nada do drama, do sonho, do trabalho, da festa da vida. Nem terra nem céu; nem mares nem o misterioso e aéreo vapor; nem triunfo imperial nem festa da aldeia ... ; nem as cem mil profissões do povo trabalhador, nem as cem mil cerimónias religiosas e populares do diversos povos; nem as cem mil alegrias e as cem mil tristezas que lhes fazem bater o coração ... Tu não podes fazer a música que te peço ... Contentar-nos-emos com esses cantos simples e ingénuos que qualquer povo canta na sua tristeza ou na sua alegria, na guerra ou nas festas sem saber quando ou como eles lhe chegaram".

(A tradução é minha e é provavelmente desastrada).

(Este texto levou-me a pensar no "progresso" e na "evolução" e de como têm um ritmo muito grande, muito maior do que frequentemente se pensa. Até quando teríamos de recuar para que um homem não percebesse o mundo moderno?)