10.10.15

Resumo - 10 de Outubro de 2015

Há precisamente cinco anos, no dia dez de Outubro de 2010 (gostaria de pensar que foi às dez da manhã, mas não foi) apanhei um avião para o Brasil. Ia buscar um barco que estava a ser construído na praia de uma cidade implausível chamada Parnaíba, no estado do Piauí.

Dessa viagem pouco recordo. Como já aqui disse uma vez, todas as viagens de avião são iguais. Lembro-me contudo perfeitamente da escala, da jovem senhora mulata que servia no bar com uma placa ao peito a dizer "Temporário". A senhora parecia saída de um livro do Corto Maltese. O bar estava cheio de homens, metade do quais via na placa uma promessa e metade uma ameaça.

O barco não estava pronto e no bota-abaixo foi ao fundo. Rebocámo-lo para a cidade, um processo longo no qual quase perdi a vida - não é retórica. Foi uma das ocasiões em que estive perto dela -. O armador despediu-me e em vez de voltar para Portugal decidi ir para as Caraíbas.

De Parnaíba à Guiana Francesa fiz uma viagem com a qual sonhava desde criança. Atravessei o delta do Amazonas, fiz uma viagem de carro com um senhor que atravessa o Equador duas vezes por semana e não sabe o que é o Equador - uma grande, grande lição de relativização -, cheguei a Cayenne e aborreci-me mortalmente. Deve ser a única coisa que se pode fazer em Cayenne desde sempre - pelo menos a julgar por um livro de Albert Londres sobre a cidade, ainda hoje um documento que me parece importante para a compreendermos -.

Trabalhei nas Caraíbas como skipper - fiz transportes e charters, redescobri a Martinique, onde não ia havia muitos anos e descobri ilhas que não conhecia de todo. Apaixonei-me por elas, todas (umas mais do que outras, claro; mas isso é irrelevante).

Apaixonei-me também por uma jovem senhora. Não a soube amar como ela queria, precisava (e merecia). No dia - mais coisa menos coisa - em que me apercebi do erro em que incorria e decidi corrigi-lo ela deixou-me. A ruptura foi violenta, desleal, demolidora, cruel. Fiquei de rastos dois anos.

Recuperei, penosamente. Fiz uma viagem de S. Franciso ao Panamá que se vai juntar ao catálogo "Viagens da Minha Vida". Passei cinco dias no canal do Panamá amarrado a uma bóia. Fui dono e depois deixei de o ser de um catamaran de 50' ao qual dei o nome da minha filha, HELENA S. Conheci uma rapariga alemã por quem não me apaixonei porque ela tinha juízo (ainda tem, graças a Deus) e eu não; tivesse sido ao contrário - tivesse eu juízo e ela não - ter-me-ia apaixonado por ela.

Este é o primeiro ano depois da grande depressão. A vida não continua - retoma, o que é diferente e melhor -. Seria tentador dizer que o círculo se fechou mas não é verdade: o círculo continua aberto, receptivo e feliz. Ainda há muito por ver, fazer e amar.

Reencontrei, sobretudo, a vontade de me apaixonar, a mais ajuizada de todas e a menos: não depende só de nós. Exige reciprocidade e - sobretudo - que as outras vontades todas saiam da frente, desapareçam, se enterrem onde de nunca deveriam ter saído.

A vida retoma. Li alguns livros que merecem ser lembrados, porque nunca os esquecerei: "There But For The", "The Sea, The Sea", "Satanic Verses"; descobri que afinal gosto do Panamá, um amor que não se desvanecerá porque os amores que começam mal são os que duram mais; encontrei pessoas que me enganaram e muitas mais que confirmaram o meu optimismo. Naveguei muito e vou navegar mais ainda. Fiz uma espantosa viagem às Bahamas, que acabou comigo a trazer um gato de regresso aos Estados Unidos. Fiz amigos de sempre e para sempre em S. Luís, no Brasil.

Atravessei o Atlântico num 50' (creio) com um armador que sofria de vários problemas psicológicos. Foi uma experiência que não quero repetir. A diferença entre uma perna partida e uma TOC  ou uma borderline é que uma perna partida não se pode negar. E não põe a vida dos outros em risco.

A minha filha veio ter comigo comigo a Antigua. Em dois meses e meio navegámos duas mil e quinhentas milhas juntos. Agora quer repetir a experiência, mas mais tempo.

Cinco anos é metade de uma vida. Cinco anos pode ser duas vidas, ou muitas. Escrevo em Évora, onde a minha Mãe está a dias do rio. É como se tivesse uma grande parte de mim arrancada - e vai ser assim o resto da minha vida. Todos nós, pelo menos a partir de certa idade, somos incompletos. Vivemos e assim preenchemos o vazio que a partida dos que nos são queridos provoca em nós.