3.12.15

Diário de Bordos - Simpson Bay, Sint Maarten, Antilhas Holandesas, 03-12-2015

Larguei de Port Antonio no dia em que a minha Mãe faria oitenta e cinco anos, se ainda os fizesse. Continuarás a fazê-los, Mãe: estamos cá nós e os netos que te conheceram e até chegar a vez deles serás lembrada, e farás anos, e estarás connosco.

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Ninguém gosta de bolinar. Lembro-me de uma frase que li um dia e cujo autor não fixei: "não gosto de escrever, mas gosto de ter escrito". Acho que se pode dizer o mesmo da bolina: não gosto de bolinar mas gosto de o ter feito.

A viagem correu bem e depressa: sete dias. B. é um gentleman, por vezes um bocadinho exasperante porque não dá um passo sem perguntar. Mas foi um bom tripulante e uma boa companhia. St. Maarten acolheu-nos principescamente: um jantar com J. e no dia seguinte outro a bordo do SINCHRONICITY, um barco pelo qual me apaixonei no dia em que o vi e ainda não me desapaixonei, apesar de alguns tumultos na nossa história.

St. Maarten (ou Martin, para quem está no lado francês) é uma ilha adorável, complexa, bonita. É curioso pensar quanto a detestava quando comecei a cá vir; o mesmo se passou com o Panamá. Com quantos outros lugares, pessoas, coisas?

Os grandes amores começam ao contrário, começam connosco a defender-nos, como se soubéssemos que estamos sempre a um passo do abismo, a um passo do amor.

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Dos sete dias que levámos quatro foram de tempestade ou mau tempo. Não tanto como o que apanhámos à saida de Bocas, mas mesmo assim o suficiente para me fazer pensar que estou farto de mau tempo.

Ma non troppo: de Atenas até às Canárias vou ter de novo mais do que a minha justa parte de pancada. Cada vez que digo que quero mudar de vida aparece-me a grandiosa parede da realidade à frente.

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Passei duas semanas na Jamaica à espera: de tripulantes; de uma decisão sobre a estúpida multa que a Alfândega me pregou, injusta e voraz; do Matthew.

Um marinheiro espera. E felizmente navega e quando navegra esquece-se de tudo o resto, porque navegar é esperar por coisas mais importantes.

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Bolinar é uma chatice: não há gesto, posição ou acção que seja fácil. Estamos a subir permanentemente, até para nos deitar ou sentar temos de fazer um esforço.

Mas a ideia de que estamos a andar contra a energia que nos move tem qualquer coisa de mágico, de fascinante. E quando estou deitado no poço e oiço o S. M. a cortar as vagas, ágil e vivo; quando olho para o céu e vejo que há estrelas e que Orion está à minha proa e ao lado estão Castor e Pollux, as estrelas dos viajantes; quando percebo o que o barco me quer dizer - os barcos falam, não fazem barulho, já por aqui uma vez o disse - deixo-me levar, deixo-me encantar e lá vamos o barco e eu, se não de mãos dadas ao menos de almas juntas.

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Falta pouco para chegarmos; se a terra fosse plana e eu não fosse míope veria o Panamá, a Jamaica. Não é, sou e não vejo. De qualquer forma prefiro olhar para a frente: St. Maarten, Atenas, Los Angeles. Do que está para trás só fica o que aprendi. O resto desvanece-se como a esteira que o S. M. deixa no mar.

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Não sei se por injustiça se por recompensa: depois das tempestades o céu é mais bonito.