30.12.15

Diário de Bordos - Simpson Bay, Sint Maarten, Antilhas Holandesas, 29-12--2015

É uma dissonância cognitiva para quem quiser o termo técnico; unheimlich para os freudianos; uma porra para todos os outros.

J. devia ter voltado de Fort Lauderdale há uma semana e das duas três: ou regressou e não me ligou; ou não voltou. Ainda.

Qualquer das hipóteses é má e não quero sequer pensar nelas. De repente esta ilha deixa de ser uma ilha e começa a fazer parte de um continente que há três meses visitei e não quero visitar de novo.

Tudo isto aprimorado por um profundo auto-desprezo porque ainda não consegui telefonar-lhe. Tenho medo.

Não é bem o medo que me estraga, é o efeito que ele tem em mim. Hoje escondi-me atrás de um SMS. Amanhã ligo. Seja cão.

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Estou outra vez no Yacht Club mas desta prometo não chatear nenhuma jornalista por causa da merda de português que o excesso de trabalho provoca.

E se não for o excesso de trabalho há-de ser outra coisa qualquer. Seja qual for estou-me nas tintas.

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Estou cheio de sono e não consigo dormir, de sede e não há bebida que me seduza, de raiva e não há noite que chegue.

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O dia foi merdoso. Mas se não o tivesse sido tê-lo-ia sido, nada a fazer.

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Há um refúgio óbvio: as palavras. Sintaxe, semântica, léxico, morfologia; verbo predicado sujeito complementos directo e indirecto. Advérbios e pronomes e artigos e assim por diante até o inferno acabar.

A velha questão da pontuação.

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Pergunto-me como estará o Soggy Dollar. E que raio de carga de água faço aqui.

Já devia estar em Atenas, J. E tu aqui.

Não te atrevas.

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Felizmente a música no Yacht Club é infecta e a empregada gorda.

Isto tem de fazer parte de um conjunto, não é?

Homogéneo, se possível.

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Chegou-me dinheiro, o último do S. M. Tenho de começar a procurar trabalho. É pouco; vai fundir-se num instante.

Não sei qual a região do cérebro que gere as questões financeiras mas a minha tem a tarefa particularmente simplificada. Devia agradecer-me todos os dias.

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Curiosa a impressão que algumas pessoas deixam em nós. Capaz de ficar contra ventos marés expectativas e um monte de pieguices dessas. (Aqui não há marés mas há vento, expectativas e pieguices dessas e das outras).

Gosto da curiosidade e de tudo o que a suscita. É uma das coisas que me faz pensar.

As outras importam pouco. Essas e as que me protegem, como a distância, o vento ou o rum Mount Gay.

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Vi o beijo descer. Mais tarde algumas testemunhas disseram que não era um beijo.

- É um anjo.
- Nada! É um aguaceiro.
- É uma nuvem.

Não era. Vi perfeitamente. Um beijo desceu não sei de onde e instalou-se num casal a uma das mesas do Byblos e por ali ficou o jantar todo.

Quando passei o beijo estava feliz. Já o casal não sei; só lhes via os cabelos.

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Está vento. Vou ao Soggy. Com sorte está vazio, com azar não.