28.2.16

Diário de Bordos - La Linea, Espanha, 28-02-2016

Aproveitei uma receita que vi recentemente na net: hamburgers de beringela. Sou avesso a comida sem carne ou peixe e hamburgers de beringelas é à partida demasiado oximórico para o meu gosto. Mas como gosto muito de beringela li a receita; e como levava gengibre e cominhos experimentei-a.

É uma delícia, uma simples e absoluta delícia. Consiste em misturar as beringelas (três) ligeiramente cozidas com gengibre rapado, cominhos, pão ralado e ovos e fritar aquilo como se fossem hamburgers. Não fiz vários. Fiz só um, grande.

Entretanto no forno tinha posto uma série de coxas de frango previamente marinadas em sumo de limão, sal e alho. Por cima cebola e pimento que estava a precisar de ser comido, por baixo azeite e vinho branco. Polvilhei com pimenta e esqueci-me da coisa no fogão. Só me lembrei dela quando as beringelas ficaram prontas.

"Dez em dez", disse-me B. "Delicioso", repetiu G. umas quatro vezes pelo menos. Eu comi pouco, como sempre que acho as coisas demasiado boas para terem sido feitas por mim. Mas que gostei gostei.

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Amanhã largo. É um momento mágico, este em que se diz e se sabe "amanhã largo". A mente muda para modo largada e de repente estamos no mar. O horizonte reduz-se ao barco: encher os tanques de água, comprar gás não vá o diabo tecê-las, pensar na merda das baterias e em como vou fazer a manobra se ainda houver um bocado de vento, lembrar-me do porto do Funchal (vou sem cartas de pormenor).

Tudo isto em paralelo com a imagem de uma jovem e bonita senhora por quem descobri recentemente uma atracção que tem duas linhas de defesa: é justificada e é correspondida. Amar é bom, de per si. Amar simplesmente, reconhecer em alguém uma série de qualidades que nos levam a amá-la procura um prazer e satisfação que se bastam a si próprios. Quando esse sentimento é correspondido as coisas mudam, claro. De repente deixamos de ser uma dúvida; ou mudamos de dúvida.

E a dúvida que ser amado suscita é melhor do que a de amar só. Trata-se de trocar dúvidas, mas trocamos uma simples por uma complexa e a complexidade é sempre melhor do que a simplicidade, pelo menos para as mentes simples como a minha.

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Seiscentas milhas até ao Funchal. Nada. Depois são duas mil e seiscentas até St. Martin e mil e cem mais até Shelter Bay. Devia reconhecer que esta viagem só me entusiasma verdadeiramente a partir do Pacífico. Até lá é tudo conhecido.

Não reconheço. O conhecido também é bom; pelo menos tão bom como o que não conhecemos.

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O vento caiu bastante. Ainda está frio, mas menos. Em breve estarei de calçõs e t-shirt. Quem me dera que o raio do planeta aquecesse de uma vez por todas...