4.3.16

Metáfora

Hoje à noite Meme Diouf comeu o lápis com que o desenhei. E comeu a borracha também, não fosse o diabo tecê-las. Assim não o posso apagar. Ignoro onde mora, mas deve ser mais para o lado do sonho do que do da memória. Vi-o perfeitamente: um rapazinho magro - muito magro, um traço só porque não sei desenhar e quando tenho de o fazer tento ser o mais simples possível. Um traço só. Quem vê que imagine o resto -, sentado num muro (ditto). Pareceu-me que estava a comer o lápis, mas isso é uma dedução: tinha uma coisa qualquer na boca e nem o lápis nem a borracha estão no seu lugar, onde religiosamente os deixo há anos. Alguém os tirou de lá.

(Devo dizer que desenho tão poucas vezes e tão pouco de cada vez que o lápis e a borracha eram os mesmos há uma eternidade.)

E não estão noutro lugar qualquer. Nada. Desvaneceram-se. Desapareceram.

Não sei quase nada do Meme Diouf. Africano, 15 anos, perdeu os pais numa daquelas guerras com que os países de África insistem em provar que a modernidade lhes chega às arrecuas e um dia caiu-me num sonho (tenho quase a certeza que não saiu da memória) para se sentar num muro e comer-me o lápis.

Pergunto-me porque o terá feito. Estaria com fome? Para se vingar de o ter desenhado tão magrinho? Por curiosidade? Ignoro.

Meme Diouf engoliu o lápis. Um traço sentado em cima de outro traço com um traço la dentro. Não o posso desenhar mais. Resta-nos (a mim e a si, leitor, que isto da escrita é como o tango) imaginá-lo: olha-nos, mas será que nos vê? Sorri, mas de onde lhe vem o sorriso?

Um traço que engole quem o fez. Bela metáfora, não é?