20.2.16

No mar, 16-02 a 18-02-2016; Gibraltar, Reino Unido, 20-02-2016

A cama leva dez minutos a aquecer. Ou mais. Não sei, é uma estimativa. A verdade é que adormeci ainda com os pés gelados. Aqueceram depois, enquanto dormia.

Noite linda, sem uma única núvem. A visibilidade é tão boa que vi a Lua a pôr-se por cima de Ibiza como se fosse um candeeiro enorme; ou um cíclope a olhar-nos com o seu olho gigante e triste.

O vento caiu um bocadinho e está ponteiro. Logo à tarde vai subir para cinco ou seis. É só um dia. Depois vai ser sempre de popa ou través. Estou espantado com o grau de fiabilidade das previsões. Desde Atenas que o Passage Weather tem acertado, não digo à hora mas quase.

Agora passo à frente de Cartagena. Há um aviso de tempestade para amanhã mas é de popa e não páro.

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Pois devia ter parado. À próxima já sei. Que arraial de pancada levei! Trinta a quarenta nós de vento, vagas de quatro metros, o S. B. quase ingovernável apesar de vir com um lenço de assoar à proa e mais nada (e mesmo assim vínhamos a fazer seis, sete, oito nós). Mais uma caterva de horas de leme (quatro, Não me posso queixar).

Posso: tenho tripulantes mas não tenho marinheiros. Dois pedaços de coisa sentados no cockpit porque não podiam dormir, aterrorizados, passivos, a quem é preciso dizer tudo.

Passageiros.

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O Mediterrâneo fez finalmente jus à sua reputação. Puta que a pariu, a reputação. Vagas curtíssimas, altas, mar pela alheta, Uma noite em branco. E chegado a Gib em vez de ir dormir tive de ir procurar material eléctrico porque não tenho uma única porra de luz de navegação que acenda. Não havia músculo que não me doesse. O Sheppard's estava fechado, felizmente. Fui ao outro, menos ship e mais chandler. E mais longe, claro.

Só depois fui dormir.

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Por muito bom que seja estar calado, no mar ou sozinho as palavras, como os barcos e as pessoas precisam de um porto que as acolha.

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Em Gibraltar até segunda-feira. Merda. Só vejo uma vantagem: amanhã vou jantar ao Tamid, o restaurante judeu da cidade. É o único pelo qual vale a pena parar.