4.4.16

Diário de Bordos - Cole Bay, St Maarten, Antilhas Holandesas, 04-04-2016

Segunda-feira é provavelmente a pior música ao vivo do Lagoonies e em breve terei de me ir embora. O que é pena, porque hoje foi o primeiro dia de relativa descompressão desde que cheguei. Encontrei um tripulante - isto como sempre é para ser tomado com pinças. Até o ver no convés a largar os cabos não acredito em nada - e consegui levantar a pouca massa que tinha no banco aqui em St. Martin. (Chamar banco àquilo é um exagero de boa vontade, mas enfim). A verdade é que fui armado apenas com o passaporte e a senhora, simpaticamente, disse-me "não tenho de procurar o seu número de conta, mas vou fazê-lo". Encontrou-o, foi de uma simpatia inexcedível - isto na Banque Postale, um organismo cujos funcionários fazem os seus colegas públicos portugueses passar por modelos de colaboração e empatia - disse-me quanto lá tinha e hey, presto!, fui almoçar ao Arhawak. Que tinham chegado umas bavettes da Argentina e o tinto não estava mal de todo e a ucraniana toda sorrisos e o Jean-Paul é um tipo com quem eu simpatizo até à medula e que se lixe. A bavette estava realmente uma maravuilha, o tinto e a ucraniana ditto (o raio da mulher está igual hoje ao que era há cinco anos quando aqui vim pela primeira vez. Como é que as nórdicas fazem? Verdade seja dita tem pouco por onde envelhecer).

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Trabalho de uma maneira desorganizada, sem plano, ao acaso, como se estivesse perdido. Não estou, mas gostava de estar.

Ontem Jim propôs-me levar o C. para Cascais e depois ficar a tratar dele na Europa. Talvez seja a isto que chame estar perdido.

Não é. Já estava assim antes do jantar de ontem, com Jim e quatro ou cinco amigos daqui, aquilo a que em francês se chamaria les vieux de la vieille, gajos que ganharam dinheiro a traficar erva nas Caraíbas dos anos setenta e oitenta, que conhecem isto por dentro, por fora e por todos os lados e com quem eu sei que poderei contar muito mais do que com quem quer que seja.

A proposta de levar o C. para a Europa chega para me provar que nem tudo foi tempo perdido na minha vida. Falta a aprovação da senhora, que a priori não está muito seduzida pela ideia.

A ver vamos.

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Segunda-feira é realmente um mau dia aqui. Devia ter ido logo para a "varanda". Agora está tudo ocupado, natural e obviamente. Vou para bordo. Prefiro não ouvir música de todo a ouvi-la má e aos gritos.