18.4.16

Diário de Bordos - Panamá, Panamá, 18-04-2016

Regresso a Panamá, desta vez por razões profissionais: vou comprar as cartas para o resto da viagem. Comprei um "pacote de dados" e posso escrever no autocarro. Ajuda a passar o tempo. Viajo de pé, o que é chato. Mas a viagem é curta - pouco menos de duas horas se não houver tranque  - e barata. Por três dólares e quinze cêntimos não se pode pedir muito mais (pode. Alguns veículos têm televisão com filmes horríveis, ar condicionado a funcionar melhor do que este e amortecedores a ar (esta última informação devo-a a R., que me ensinou a distinguir o amortecimento a ar do de molas).

Este veículo é dos velhos. Um só piso, cadeiras estreitas, molas em vez de ar, ar cansado em vez de condicionado. Mas a velocidade é a mesma e não tarda estarei na Islamorada a comprar cartas.

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Hoje fiz as clearances (de entrada e saída. Em português diria " fiz a entrada e a saída"; ou "dei a entrada e a saída "). A burocracia é a mesma em toda a parte do mundo latino porque tem a mesma função: dar emprego a quem não sabe fazer mais nada ou, mais generosamente, não se importa de ser literalmente uma personagem camusiana toda a vida e se dedica com afinco a manusear o absurdo.

Faz alguns anos que não entro numa repartição pública portuguesa e se tiverem evoluído como os notários,  por exemplo, devem estar hoje radicalmente diferentes. As instalações da AMP em Colon trazem-me à memória as da função pública lusa de há alguns anos: feias, desmazeladas, maltratadas, sujas.

Como se todos soubessem que o que ali se faz não merece muito respeito, nem tempo ou dinheiro.

Enfim, consegui poupar umas poucas centenas de dólares ao armador, corrompi três pessoas (valor total: quarenta e cinco dólares. Corromper é um verbo demasiado forte) e amanhã largo para o Canal e depois Quepos, na Costa Rica.

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Tanta vontade tenho de estar no mar com uma tripulação porreira... Dou de mais e espero de mais das pessoas. O problema não é de modo nenhum novo mas há alguns anos que não estou numa situação em que ele tenha ocasião de se manifestar.

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Comprei as cartas em papel. É como deitar dinheiro ao mar.

Ou a um café. Um dia.

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Bebo um último mojito no Rana Dorada. Amanhã saio de Shelter Bay, se tudo correr - ou tiver corrido - bem. Os inspectores do Canal foram hoje fazer as medidas. Não tive nenhuma chamada, suponho portanto que não tenha havido problemas de maior.

Espero. Estou farto de urubus.