26.5.16

Diário de Bordos - Cabo San Lucas, Baja California Sur, México, 25-05-2016

Lentamente o puzzle fecha-se. Aprendi com o meu pai a gostar de puzzles. Trazia-os de Inglaterra  (o rebocador do qual era Imediato ficava de alerta em Penzance Bay e os puzzles eram o seu passatempo, mai-la leitura). Para fazer um puzzle começa-se pelas bordas. Fecha-se o quadro. Depois avança-se a partir de um dos lados. Não se deve procurar colocar as peças mais difíceis imediatamente: deve-se deixá-las encaixarem-se "sozinhas", quando o lugar delas é evidente.

De certa forma um puzzle resolve-se a si próprio. Nós somos apenas a força mecânica que põe as peças no lugar.

O meu puzzle mexicano está quase resolvido. Sábado chego a Lisboa e a uma nova vida, simultaneamente. Por um feliz acaso é a Lisboa que chego: descobri finalmente que as raízes têm uma voz, que a sedentarização faz sentido se for num sítio determinado e não num sítio qualquer.

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Abraham, o filho do dono do 101 Kruda queria pagar-me para lhe dar aulas de francês. Ouviu-me falar com os jovens franceses. Disse-lhe que não posso. Vou-me embora amanhã.

Não é a primeira vez que alguém me diz que falo francês como um francês. Não se pode ser mau em tudo, por mais que se tente.

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Penso na viagem que me espera, na sorte que tenho em ter um sofá onde dormir quando chegar - quantas vezes não tive nem isso? - na felicidade que é ter uma ideia, um futuro.

Pergunto-me quando acabarão os meus futuros? De quantos dispõe um homem? Provavelmente de tantos quantos os seus passados.

Os futuros são inesgotáveis, como os passados e o mar.

A., amigo de longa data e lutas comuns diz-me que temos setenta e sete vidas enquanto os gatos têm sete.

Compro a ideia, mas não a quantidade. Temos um número infinito de vidas. Pelo menos se as medirmos em possibilidades de vida, que é o critério correcto.

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Começaram as negociações com a agência para saber quem deve quanto a quem. Não é este o meu mar.