19.6.16

Beleza, ingratidão

Só,  divago nas ruas da beleza. Nas ruas, travessas, praças, largos e becos, avenidas e boulevards. Perco-me nas ruas da beleza. Como um adolescente espantado descobre o primeiro seio, como um homem descobre que é frágil.

A beleza é isso: um espanto e uma fragilidade. Uma cidade na qual me perco, na qual me dissolvo. A beleza é isso: uma solidão que se ignora. Descubro-a num poema, num rosto, numa amizade, no corpo esguio da mulher que ao meu lado joga xadrez com bocados de papel a fazer de peças, na memória de um corpo que amei ou amarei.

A beleza é esta constância, esta permanência, esta ausência: perdido e preso, livre e surpreso.

Sou pobre e sou rico à vez. Depende da hora do dia. Sou tudo e o seu contrário: alto e baixo, gordo e magro, feio e bonito. A única coisa que fica - é pouco, bem sei - é isto: perder-me sozinho nas ruas da beleza. Todas.

E ser feliz com isso.

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Não é pouco. Sou ingrato, sei. Não acredito em deuses e de anjos só sei o que leio ou vejo no cinema. Acredito na beleza, no prazer solitário de ouvir o Gonçalo no café Tati, na sorte que tenho: poder perder-me nas ruas da beleza e não precisar sequer de me encontrar.