15.6.16

Diário de Bordos - Lisboa, 15-06-2016

Hoje choveu um bocadinho. Ia buscar a bicicleta mas a loja estava fechada e acabei - sem querer, claro - no El Corte Inglés.

Aquilo é uma desgraça. Tem produtos óptimos e baratos: sobreasada, por exemplo. Já por aqui lhe cantei laudas, uma das provas de que se Deus existisse moraria em Mallorca. E vinho e pâtés e chouriço de bolota e trinta por uma linha.

Lamento imenso o meu médico ser do SNS. Se fosse do sector privado poderia rapidamente ajudá-lo a acrescentar um quarto ou dois à casa de praia que provavelmente teria na praia de Moledo (é chic de mais para ir para a Comporta). Assim vou apenas contribuir para o buraco da Segurança Social.

Enfim, talvez não. Poupo no psiquiatra e nos anti-depressivos, muito mais caros do que sobreasada a treze euros o quilo ou vinho Portada a quatro a garrafa. A preços destes não há depressão que apareça. (O vinho é daqueles que se parecem com uma mulher bonita, tão bonita que não tem ponta por onde se lhe pegue. Mas que diabo, quem não gosta de dar uma volta de vez em quando com uma miúda linda e muda? Além de que acompanha bem os pâtés, estrangeirados eles também).

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Tudo acontece porém em câmara lenta, mortalmente lenta, como se alguém se tivesse esquecido do travão de mão, como se me tivesse esquecido de que estou em Portugal. Não esqueci. Não o conseguiria, mesmo que o quisesse: Lisboa corre-me nas veias e eu nas dela, feitos que fomos um para a outra. Todos os dias nos injectamos mutuamente.

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Daqui a um ano parecer-me-á que foi rápido, mas quanto tempo falta para daqui a um ano?

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Vou dizer poesia no Festival Silêncio. Recebi hoje a confirmação. Ninguém sabe a luta demente que travei com a timidez, com a dificuldade de falar em público.

Devo o prazer que agora tenho em dizer poemas para outros ouvirem ao meu amigo Celso Borges, um amigo de coração, de vinho e de poesia.

Não sou grande fã do Brasil, mas sou-o dos meus amigos brasileiros; de todos e do Celso em especial. Um dia ele virá a Lisboa e eu direi "Eis Celso Borges: poeta, músico e homem capaz de tudo, até de me pôr a falar nas ruas".

(E do Riba. Um homem que tem uma livraria chamada Poeme-se deve ser objecto da admiração toda de toda a gente. Aqui fica o meu abraço aos dois. Um dia far-vos-ei conhecer Lisboa como se cá tivessem nascido, meus irmãos).