24.6.16

Diário de Bordos - Lisboa, 24-06-2016

Foi no hospital que recebi a notícia da saída do Reino Unido da UE. Não é o melhor sítio mas é a melhor forma: filtrada pela dor, pelo desconforto e pela noção (perpétua surpresa) da nossa fragilidade a saída ou permanência adquire aquela que talvez seja a sua verdadeira relevância: pouca. Que me interessam os ingleses se tenho a cara meio desfeita (é um exagero. Já não está) e a braços com uma crise de Ménière ( é um understatement. Foi - ainda é - dura)?

Mas passando este pequeno limiar egocêntrico e saindo para o lado de lá: tinha a secreta esperança de que o Cameron ganhasse. Acho que ao submeter-se a um referendo tomou a decisão certa e honorável. Democracia é dar às pessoas a possiblidade de se enganarem. Só nas ditaduras alguém sabe o que é bom para todos - e todos acabam pior, com a notória excepção de quem decide, claro -.

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Fui parar ao hospital por causa de uma queda da bicicleta mas não sei o que a provocou. Ou a Ménière ou um buraco (e neste caso a crise foi uma consequência). Não houve interferências externas, sejam elas líquidas ou sólidas.

Os hospitais portugueses  (estive em dois desta vez e em três ao todo, o que não é representativo) mostraram uma vez mais que são excelentes. Falham num ponto: por vezes é preciso um pequeno empurrão para os pacientes serem ouvidos.

Desta vez essa tchova foi dada pelo meu amigo Henrique V. D., a quem deixo aqui expressa e pública a minha gratidão e - como se fosse preciso! - a minha amizade.

Amizade e gratidão essas que se estendem à Ana Isabel e filhos, que me acolhem em sua casa com uma paciência e uma generosidade que me fariam chorar se eu fosse dado a choros. Sou e fazem.

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Agora resta esperar que o senhor Ménière vá dar uma volta ao bilhar grande e por lá fique muitos anos.

(Já está a afastar-se. Nada de aflições).

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Sou um homem cheio de fragilidades. Uma delas é pensar que venho do planeta Kripton. Não venho, sei-o há muito tempo. Dispenso memoranda.

Erratum: Ménière e não  Meunières. Há muito tempo que não me preocupava com isto.