17.6.16

Reedição editada bis - Escrever

      Já não sei a que língua pertenço, a que país. Escrever é como procurar o melhor itinerário nas ruas de Genebra, actividade à qual me dedico todos os dias, montado numa scooter velha. Cá estou: outra vez entre duas vidas, dois países, duas ou três línguas e uma incalculável quantidade de paisagens, geográficas ou emocionais, pelas quais fui desde sempre atraído e das quais fui sempre fugindo, umas vezes voluntariamente, outras não.
       Escrever é como percorrer as ruas frias, feias e pouco convivais de Genebra sem um mapa; a cada esquina um precipício e indescritíveis monstros, disfarçados de polícias. Mas os caminhos da escrita são mais bonitos e há mais palavras do que ruas, o que torna o exercício cativante, se bem as punições sejam piores: não há multa que pague uma frase mal escrita, uma palavra mal escolhida, uma analogia deselegante, uma vírgula fora do lugar.
       Do francês, Cioran dizia: “esta língua de empréstimo, com todas as suas palavras pensadas e repensadas, afinadas, subtis até à inexistência, dobradas sob as exacções da nuance, inexpressivas porque já exprimiram tudo, assustadoras de precisão, discretas até na vulgaridade... Uma sintaxe duma rigidez, duma dignidade cadavérica encerra-as e atribui-lhes um lugar do qual nem Deus as poderia desalojar”.
       E depois desta descrição da língua francesa, a melhor que alguma vez li vem: “A pátria não passa de um acampamento no deserto, diz um texto tibetano. Não vou tão longe: trocaria todas as paisagens do mundo pela da minha infância”.
      A verdade é que eu não sei a que chamar, realmente, “a paisagem da minha infância”: será a Linha de Cascais, com a Marginal, esse cordão umbilical que sempre me ligou a Lisboa, e onde, ainda hoje, me acontece chorar quando vejo o sol pôr-se atrás do farol da Guia, e a luz a tornar-se espessa e dengosa e cor-de-laranja como uma mulher das ilhas? Ou será Quelimane, em Moçambique, com aquelas intermináveis filas de coqueiros, onde sonhei as minhas primeiras aventuras sentado na mangueira ao lado de casa, a encher-me de mangas verdes com sal porque era o título de um livro de poesia (de um poeta que só muito mais tarde vim a conhecer e apreciar)? Ou ainda, esticando um pouco os limites da infância, Lourenço Marques, cuja baía conheço como as minhas mãos, onde a adolescência me apanhou e com ela as primeiras dores de amor, imediatamente diluídas em Nietzsche e em whisky? Onde é o país da minha infância?
      Percorro as ruas de Genebra montado na minha scooter e tacteio o meu caminho através da escrita, tarefa nobre mas fastidiosa. Penso em todas as coisas que escrevi e deitei fora, porque não sabia, só hoje sei, que escrever é um castigo, uma faxina, um embaraço. Pensava nessa altura que cada frase devia ser sublime imediatamente porque no fundo sou preguiçoso e não há nada que mais tema do que a lassidão. Hoje sei que não é verdade, as palavras vêm como vómito e depois é preciso limpar tudo, cada sílaba, cada gaveta, cada prateleira, cada canto do espelho - porque escrevemos e vomitamos sempre à frente de um espelho, numa tentativa - falhada - de nos desgostarmos de nós e da escrita para sempre.
      Hoje, montado na scooter, não são as ruas de Genebra que eu vejo: são as inúmeras avenidas, ruas, becos, auto-estradas, por onde andei ao longo dos anos, labirinto sem fim cujo ponto de chegada é, inevitavelmente, o ponto de partida; e onde não há polícias para nos castigar – só as palavras e a morte, porque uma vida perdida é uma morte antecipada. E é dessas ruas, avenidas, becos sem saída, carreiros e caminhos de cabra que quero falar, um pouco como um arquitecto que fizesse os planos da casa depois dela construída.