12.7.16

Caroline / II

Caroline demora a trazer o vinho. Nada disto faz sentido. Tenho de ir aos pormenores, lembrar-me da sequência que me trouxe aqui, como se houvesse um princípio. "Começou a morrer no dia em que nasceu", dizem. Talvez precise de começar por ai. Não: o que levou o meu pai a conhecer a minha mãe? Casarem, acasalarem, terem filhos? Nada disto tem princípio. Fim tem, mas só metade: quando morres o mundo acaba para ti e continua para todos os outros. Meio fim. Quando nasces nada muda completamente. Nem em adulto percebes tudo o que te trouxe onde estás. Morremos sem perceber.

Posso pôr o princípio aleatoriamente no dia em que decidi parar a fotografia; ou naquele em que descobri que Adelaide já não me doía; não sei. Todas as histórias têm muitos princípios possíveis. Um acidente de automóvel não começa quando o carro se despista ou embate noutro; uma garrafa de vinho abre-se, mas não começa aí a sua história, nem acaba quando está vazia.

Nada começa nem acaba. Alguns amores começam no Jardim da Estrela, por exemplo. Nunca acabam. Porém se formos a ver bem começaram antes, num livro que se compra no aeroporto, numa discussão sobre o género de uma palavra, numa pretensa semelhança dos dois amorosos, num beijo numa esquina, num copo de vinho que tarda em chegar. Vá saber-se se acabam, quanto mais quando. Não sei.

Não sei são as duas palavras da língua portuguesa - ou de qualquer outra, se traduzidas, claro - de que mais gosto. Não há outra expressão que tão bem resuma a nossa passagem pela vida. Não sei.

Caroline volta para a sala com um copo de vinho em cada mão. Trocou de roupa. "Troquei de roupa", diz. As pessoas gostam de dizer, como se aquilo que se vê não fosse suficiente. Uma imagem vale mil palavras? Só se estiverem escritas. Ditas, a cada uma a sua palavra. "Para estar mais à vontade. Espero que não se importe". "Não me importo nada". Pausa. Silêncio. Um tempo. "Claro". Trocou a farpela de cerimónia por uns shorts e uma t-shirt, o soutien (e restante roupa interior, suspeito) por nada.

- Doutor, preciso de um transplante de coração. O meu apaixonou-se pela pessoa errada. Isto é, pela pessoa certa, mas para mim é a pessoa errada. Enfim, não sei. Troque-mo, por favor. Ponha-me um novo, artificial.
- Quem lhe garante que não se vai apaixonar pelo primeiro robot que vir passar?

Caroline está sentada num maple, calada, copo de vinho na mão. Cruzou as pernas, perdeu o olhar num dos quadros que tem na parede, um original de Carlos Farinha, romance gráfico cuja acção se passa num bar. Tão pouco falo. Penso na ausência de começo e fim das coisas, deixo-me gentilmente apprivoiser por Caroline, pelo vinho, pelo silêncio. Sigo-lhe o olhar para o quadro. Conheço bem a história: um homem sozinho ao balcão olha para a televisão na qual um casal se abraça. The End.

Acabou e bem, pelo menos para as personagens do filme. Talvez afinal haja coisas que têm fim e princípio. Um filme, por exemplo. Uma fotografia?, pergunto-me. Uma peça de Bach tocada por Gould, que não as toca: reconstrói-as como se cada nota fosse uma peça de Lego?

Caroline aproxima-se de mim. Sai do maple e senta-se ao meu lado no sofá. Agora sou eu: ponho o copo na mesa ao lado do sofá e aproximo-me dela. Há quanto tempo estamos calados? Não sei. Levanta-se e põe um CD a tocar. As Suites Inglesas de Bach por Gould. "Deve tê-las ouvido de minha casa", penso.

Senta-se e pega-me na mão. Põe-a no ventre, num seio, nos lábios. Volta a pô-la no ventre, numa coxa, no joelho. Estamos muito perto um do outro, calados,  Penso na história de Farinha: The End. Como teria começado? Algum filme jamais disse "The beginning"? Provavelmente.

O desejo dilui-se melhor no silêncio do que nas palavras. O amor também, suponho. Deve ser por isso que se confundem tantas vezes.

- Vamos para a cama.
- Vamos.

Não sei quem disse a primeira frase nem quem respondeu. Se calhar foi assim que tudo começou.

(Cont.)