4.7.16

Definição - Marinheiro

Sou um marinheiro como um alcoólico é alcoólico mesmo que já não beba. Sou um marinheiro: é o que me define, o que me guia, o que explica a minha vida e a maneira como reajo às coisas dela, o que estrutura a minha mente.

Sou um marinheiro porque não sei ser mais nada. Não é uma proeza, antes pelo contrário: é uma incapacidade. É como as coisas - as minhas coisas - são.

Ser um marinheiro não é um cumprimento. Não é tão fácil de defnir como um engenheiro, um dentista ou um canalizador. Os homens andam no mar há milénios e nem um - nem mesmo Joshua Slocum, nem mesmo Conrad - conseguiu definir de uma vez por todas o que um marinheiro é (se bem Conrad, no Negro do Narcissus tenha andado lá perto).

Ser um marinheiro é um estado de espírito indefinido até agora. É uma mistura de teimosia e de deixar ir, de saber quando não deixar ir mais, saber que não és nada e és tudo e o nada em ti é tão poderoso e forte como tudo o que te rodeia, mesmo que o mar e os barcos e a vida sejam infinitamente mais fortes do que tu e apesar disso não vencem a tua vontade pura, clara, simples, linear e não deixar esse conhecimento tomar conta de ti e transformar-se em húbris. O mar não gosta de arrogância e reconhece-a a milhas e um marinheiro sabe que tem de se afastar dela tão depressa como do medo mesmo mantendo presente no espírito que vai ganhar porque um marinheiro é um marinheiro, uma das formas da vida, concentrada, reduzida ao essencial, ao osso e que só os idiotas não têm medo.

Simultaneamente saber que as coisas são como são e não se conformar com elas: um marinheiro é tudo e o seu contrário, como a vida.

(Escrito em St. Martin a 23-12-2014, traduzido e editado hoje).