31.7.16

Diário de Bordos - Alicante, Valência, Espanha, 31-07-2016

Alicante. A cidade é-me simpática logo, mal ponho o primeiro pé fora da marina, de repente, sem que perceba porquê. Já nem ligo ao "¿wifi? No", dito em toda as entoações possíveis - vai do desinteresse total à pena fingida, passando por qualquer coisa que pode passar por orgulho -.

Não tem? Não faz mal. Das duas uma: ou pergunto "sabes onde há?" (estamos em Espanha) ou vou perguntando até alguém dizer "¿wifi? Si, tengo" e o lugar me agradar.

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Ontem fui jantar com J. Aquilo não é bem uma mulher: é um catálogo de desgraças, com olhos azuis e pernas demasiado magras. A certa altura entrei em perda, como um avião que perde a sustentação. Ela também, de resto, mais ao menos ao mesmo tempo.

Cada vez me é mais difícil perder tempo com quem não quero passar o tempo.

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J. é muito observadora: observar os outros permite-lhe não se ver.

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Tem um corpo que parece um livro de vida. Entre cicatrizes, piercings e tatuagens aquilo não é uma pele, é um cemitério.

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Ontem perdi, pela primeira e provavelmente última vez a paciência com B. Foi leve, apenas o suficiente para o acalmar um bocadinho.

Reconheço a sorte que tenho com este armador e estou grato a quem a comanda.