12.8.16

Reedição bis - Silêncios

É meia-noite e meia e provavelmente a vigésima vez que chego a uma cidade na esperança de recomeçar a vida. Aos quarenta e três anos é, reconheçamos, tarde. Nunca se reparte do zero, claro, excepto financeiramente: todos nós acumulamos uma bagagem à qual os americanos dão o nome, redutor, de “emocional” e um conjunto, mais ou menos rico – mas muito mais importante do que a dita bagagem – de silêncios, que levamos connosco onde quer que vamos. É por isso que o James Baldwin tem aquelas linhas fabulosas sobre o mundo, "sempre mais pequeno do que o viajante que nele viaja"; e é por isso que nos tornamos, com a idade, cada vez menos pacientes e cada vez mais tolerantes.

Há vários tipos de silêncio e várias receitas. Os meus são feitos de uma mistura - variável, naturalmente, com o interlocutor - de medo, arrogância e esperança. Há outros ingredientes, como o respeito, a liberdade, a indiferença, o embaraço, a cumplicidade. Cada pessoa deve escolher o seu silêncio – e os ingredientes que o compõem –, mas nunca se deve misturá-los, porque cada silêncio é diferente dos outros e não são miscíveis: misturá-los é fonte garantida de misérias ou de chatices. Os silêncios não devem, sobretudo, ter mentiras à mistura porque mentimos a nós mesmos – e isso acaba mal, invariavelmente –. Há silêncios sólidos e outros que o são menos; há silêncios que nos encurralam e silêncios que nos libertam (enfim, espero).

Há silêncios de vários níveis: a primeira vez que fui a Barcelona fiquei em casa de amigos que conheci durante as vindimas em França. Ele era basco, pequeno e atarracado, falava espanhol e francês. Ela era uma alemã interminável, com uns seios enormes que eu por vezes via, nus, sobre a cidade, como duas luas abençoadas e falava alemão e inglês. Compreendiam-se porque eram ambos estudantes na escola de mímica e mimavam todas as conversas, mesmo as mais triviais. Era agradável estar com eles, mas a magia perdia-se um pouco porque eu tinha que falar - não sabia, como eles, mimar o silêncio.

II
Os silêncios mudam, como o tempo ou o mar, rei de todos os silêncios. Hoje conto os tostões em Londres, bebo cerveja Courage e tento reanimar uma libido moribunda. A libido está para a saúde como a construção para a economia. Os próximos anos vão ser uma travessia do deserto, mais uma. Para que uma relação funcione é preciso que os silêncios de cada um dos parceiros sejam compatíveis. Preciso de apanhar os bocados de mim que deixei espalhados por todo o lado, que as feridas se fechem e  esta impressão de não servir senão para beber whiskies (a cerveja é uma adversidade, mais uma) me largue antes de poder sonhar com outros terrenos, outros corpos.

Uma vez conheci uma mulher pela qual me apaixonei. Um dia fui esperá-la ao aeroporto e vi todas as mulheres da minha vida, todos os aeroportos. Vi, como antes de morrer, todas as mulheres que esperei em todos os aeroportos e apercebi-me de que nos enganávamos de silêncio, ela e  eu. Amava-a demasiado para lhe infligir o campo de batalha no qual a minha vida se tinha transformado. Amava-a muito; ainda a amo, de certa maneira, como amo todos os silêncios inexplorados, incompletos, frustrados. Ela detesta-me, odeia-me, com razão: outro silêncio mal interpretado, outro silêncio mortal, outro silêncio de que portarei o estigma até ao fim. Há silêncios invioláveis, impossíveis de partilhar; os meus são-no cada vez mais, angustiantes.

III

Escrevia estas linhas em Londres. Nessa altura não media a amplitude da devastação. Hoje, nestes comboios quotidianos (que em breve acabarão, eles também), ainda ferido, ainda só, tento “quebrar o silêncio”, recompô-lo numa memória de computador, na minha memória. É difícil: quando se teve por única companhia, durante tanto tempo, um dado silêncio é difícil mudar: não se pode mudar de silêncio como se muda de camisa. Como não se pode mudar de dor, nem a dor.

Alguns silêncios têm cores. Um dos meus silêncios favoritos é negro, como os cabelos de uma rapariga por quem me apaixonei há uns anos numa praia de Moçambique. Estávamos deitados na areia, a olhar o céu e a falar – ela de Lanzarote, onde tinha nascido, de Londres, onde vivia, do trabalho, com o qual não estava contente. Eu das raízes, que teimam em crescer e das quais é tão difícil fugir, às quais é tão difícil voltar; de como é imperioso fechar as portas que deixámos abertas por muito que os anos tenham passado. O desejo subia em nós como a maré, como um copo que se deixa debaixo de uma torneira que pinga em silêncio. Olhava-a e via a mancha negra dos cabelos dela no branco da areia e falava, falava, porque frequentemente falar é o melhor silêncio. Hoje está a chover e a chuva é espessa e negra e brilhante como os cabelos dela na areia. Não sabia que estava apaixonado e de qualquer maneira não queria estar apaixonado, porque não queria sofrer mais, nem fazer sofrer. No fim, como sempre, os silêncios levaram a melhor ao desejo: disse-lhe boa noite, acompanhei-a ao quarto do hotel e fui deitar-me sozinho, dorido.

Agora é tarde, demasiado tarde. Já não estou apaixonado por ela porque o amor é como a chuva: ou nos deixa molhados e frios ou - como a erva nos planaltos do Zaire - leves, brilhantes e abençoados. Os silêncios, como as chuvas e os amores, podem ser muito diferentes mesmo se se assemelham imenso. Com essa rapariga falava espanhol. Uma língua que partilhamos com alguém é uma casa que tem cantos que nunca visitamos, silêncios. No “Leopardo”, esse milagre, o Príncipe diz: “uma casa da qual conhecemos todas as divisões não merece ser habitada”. Falávamos espanhol, mas eu não sei calar-me em espanhol; –  só devemos utilizar uma língua quando podemos utilizar os seus silêncios -. Já não a amo, como a chuva que parou e deixou as ruas molhadas, mas brilhantes; quero que ela seja feliz como uma paisagem africana depois da chuva.

Que fazer, para calar os gritos ensurdecedores dos meus silêncios? Escrever, talvez.

Londres, Neuchâtel, 2001