12.8.16

Diário de Bordos - Praia da Rocha, Algarve, Portugal, 12-08-2016

Ontem arrefinfei-lhe um bocadinho. Estava coberto de motivos, apresso-me a esclarecer. Hoje de manhã o italiano da cama de baixo olhou para mim com um olhar ainda mais inamistoso do que o do costume. Também tirei o sofá à chinesa que dorme na sala porque não há mais camas. Foi dormir para a varanda e teve, coitada, de afastar os mosquitos da cara. É uma jogadora. Vive em Ayamonte e vem aqui para jogar no Casino. Já somos amigos. Agora está na cozinha a explicar as suas teorias sobre o jogo. Peguei no café e deixei a tarefa de a ouvir a um jovem americano que está a fazer ovos com bacon.

Ele também nunca entrou num casino. Enfim, também não é o termo correcto. Eu entrei três vezes. Não preciso de ajuda para perder dinheiro.

Além de que prefiro dá-lo a quem faz vinho e comida e coisas assim, benfeitores. Os dos casinos e das roupas, carros e casas não precisam de mim para nada. De qualquer forma é um falso problema. Raramente tenho mais dinheiro do que aquele de que preciso para comer e parcimoniosamente. Quantas vezes nem isso. A chinesa que gaste o carcanhol como entender.

Também falei com uma jovem mulata francesa. Tenho as ressacas alegres e comunicativas. Ainda por cima estou feliz. É só somas.
 
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Os dias sucedem-se e parecem-se todos. Quando está vento paramos do outro lado do Rio; quando não está vamos à Ria de Alvor. Se fosse mais novo acharia uma chatice. Agora estou-me nas tintas. Em Ferragudo ficamos fundeados no sítio onde, há quarenta anos, acordei no P. of Lisbon e pus um pé no chão e ooops, senti água até ao tornozelo.

É uma sensação estranha, um gajo acordar num barco e ter água até ao tornozelo. Depois voltou a acontecer-me, uma ou duas vezes, mas aquela foi a primeira e eu tinha só dezoito anos. É novo de mais para ser skipper, eu sei. Na altura não sabia. A verdade é que o armador gostava de mim. Um dia disse-lhe que me ia embora para um barco à vela e ele duplicou-me o salário, que já não era mau de todo.

Depois quis oferecer-me um prédio para construir e disse-lhe que não. Se fosse dado a isso perguntar-me-ia se fiz bem. Não sou e não pergunto. Para quê?