4.9.16

Fractal fatal

É uma simples questão de arquitectura,  percebes? Não? Refiro-me aos sentimentos. Onde pôr este amor? E esta amizade? Separo-os com uma parede ou um corredor? Onde preferes a dor? Que achas de colar o medo ao amor, com um balcão e meia dúzia de bancos daqueles de bar, altos? Assim habitamos um e temos o outro debaixo de olho. Talvez não seja má ideia, mas onde dormimos - no lado do amor ou no do medo - ? E que achas de pôr a dúvida no centro, com uma saída para o alívio? O desespero? Esse põe-o num canto escondido, que se lixe.

Arquitectura, digo-te eu. Esta merda é um labirinto e um lego juntos. Perdes-te no labirinto, as peças  de lego não encaixam umas nas outras e os quartos são uma confusão, uma desordem.

Esquece a simetria. Faz de conta que acreditas na ordem e entendes a sua ausência.

Como se do átomo de um piscar de olho ao universo de uma vida partilhada tudo não fosse se não uma questão de escala; como se o amor, a amizade, a esperança e a dor e o resto fossem partes de um fractal.

Na verdade são. Chama-se vida. A dor de hoje é uma ínfima parte de toda a dor que já sentiste e vais sentir; como a alegria de ontem ou a felicidade de amanhã.  É um fractal.

Faz uma fogueira e põe-a no centro do teu sorriso, da tua casa, da tua vida. É nela que vais morrer e é ela que te faz viver. Pede ao arquitecto que de todas as divisões se veja o fogo; adormece como vives, ri como choras, sê feliz como sofres, espera como se houvesse lenha para a fogueira durar até ao infinito.

Um incêndio começa com uma fagulha, a mais frágil das luzes.