16.10.16

Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 15-10-2016

Um gajo sai de bordo sem um plano preciso, exceptuando sair de bordo. Era a única coisa clara.

Acaba mal, claro. Palminhei quilómetros por ruas que me fizeram pensar na África do Sul (têm casas, mas parecem desertas), comprei o que precisava no Walmart mas em duas vezes. Da primeira esqueci-me de parte das coisas - por coincidência as mais importantes e urgentes -, esperei horas por autocarros que não aparecem nunca (pequeno vislumbre: um dos condutores era simpático), almocei maravilhosamente apesar de um episódio com o piripiri e voltei para bordo exausto e a precisar de um duche.

Só atendi à primeira condição. O duche fica para depois. Para quando acabar de ouvir os álbuns todos do Cohen que tenho gravados.

É a minha forma de dizer que me estou nas tintas para o Nobel do outro. Este também  (digo também porque não conheço Dylan o suficiente para dizer outra coisa) o mereceria. Deitado, peganhento (a solidão tem coisas boas) cansado e feliz. Não vai durar muito: as duzentas e cinquenta músicas que tenho gravadas dele vão acabar, a necessidade de um duche vai impor-se.

Mas isto é de aproveitar enquanto dura. Chama-se abandono e é uma das formas da liberdade.