19.10.16

Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 18-10-2016

Fui jantar com B. Convidei-a. Levou-me a um restaurante chamado Blandey's, "de onde podemos ver a ICW [Intracoastal Waterway, para quem não sabe]." "Tens razão, B., não vemos água que chegue". B. foi capitã de mega-iates muitos anos. Agora vende barcos na Florida e pede-me dois dólares para dar de gorjeta ao arrumador de automóveis. Sempre gostei dela, mas hoje fiquei a gostar ainda mais. A primeira vez que a vi foi em Bocas del Toro, na marina de Red Frog, da qual era directora. Pouco tempo depois de eu chegar foi-se embora, farta do salário baixíssimo e de lhe terem mudado o escritório para as casas de banho. Reconheci nela uma irmã de mar. Não sei exactamente como descrever o que é uma (ou um, já agora) irmão de mar mas é isso que a B. e muitos outros são.

Tem muito para cima de sessenta anos e um corpo ingrato, mas foi uma mulher bonita, vê-se à légua. É claramente uma das coisas que a marafa. Explica-me que quando era jovem e bonita toda a gente a queria ter por perto, mas agora velha e feia ninguém lhe liga. Di-lo sem amargura aparente, mas sei que isso a magoa.

É um tema que por vezes vem à tona e durante o jantar digo-lhe "B., se um dia fomos bonitos sê-lo-emos sempre. A beleza migra, não se esvai. Antes estava fora, agora está dentro".

Foi um bom jantar. Falou-me de uma cantora chamada Sia, trouxe-me a bordo e pediu-me para falar dela aos armadores. Teve uma boa vida, disse-me várias vezes, como se precisasse de se convencer a si própria. Tiveste, B. Melhor do que a de muita gente. E não te preocupes com a que tens agora. Temos a sorte de com esta idade podermos viver como se tivéssemos um terço dela: vivemos três vezes mais do que toda a gente, já viste?

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A conversa com B. foi muito mais do que isso. Falámos de tudo, desde os sítios que amamos até à necessidade de mar. Mar é amar com menos uma letra. Talvez por isso não é a melhor coisa do mundo. É quase.

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Não foi isso que disse hoje ao meu armador. Descobri que precisamos de comprar um fogão novo e disse-lho. Perguntou-me "Porque existem barcos?" "Porque são a melhor coisa do mundo, C."

Passo dois degraus ou três.

"As embarcações são feitas para ser navegadas, bem pilotadas e cuidadas. Se fizermos isto tudo temos uma para a vida".  (Depois acrescentei "Reconhecidamente há que pôr um bocadinho de dinheiro na mistura, de vez em quando", mas isso é outra história).

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Às vezes ocorre-me que se vive dentro de um barco como dentro de uma mulher, mas calo-o imediatamente: fugiriam todas, não é?, se me ouvissem dizer isto.

Ou quase todas.

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Consegui acelerar o ritmo de trabalho, mas não para onde devia estar. A flexibilidade num homem deve ser a mesma coisa do que a beleza numa mulher: não se esvai mas migra.