16.12.16

Diário de Bordos - Lisboa, 16-12-2016

A viagem boa chegada boa: a TAP deixou-me levar o saco na bagagem de mão, pelo que não tive de esperar a habitual eternidade em Lisboa. Entre a aterragem do avião e o destino final decorreu uma hora, a qual incluiu os rituais croquete e bica à chegada, carregar o telefone portátil e verificar o bilhete do metro.

Nem as igualmente habituais escadas rolantes avariadas, a notícia no DN que o governo subvencionou não sei quantas empresas esperando assim criar mil e trezentos empregos (lê-se a notícia e vê-se que não é verdade: quinhentos são novos e os outros são mantidos). Faço rapidamente as contas: cento e trinta e seis mil euros por emprego. Se pegassem nessa massa e a dessem directamente aos beneficiados eles utilizá-la-iam muito melhor (isto assumindo que os beneficiados finais são os empregados. Duvido. Mas isso é outra história).

Está frio e chove. "Lisboa acolhe-me chorosa", penso. Talvez. Não sei. Descarto a ideia por pieguice manifesta. No meio das incertezas todas nada uma certeza: é bom estar de regresso, por muito difícil seja o que me espera. O resto é entre mim e Lisboa, uma vez mais.

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No avião acabei o Homme Obscur de Yourcenar. Como de costume acompanhado por um posfácio, espécie de making of. É desse posfácio que retiro esta descrição de Nathanaël, a personagem principal:

"...il n'est pas tout à fait aussi ignorant ni aussi démuni que j'aurais voulu qu'il le fût. Reste, néanmoins, aussi indépendant que possible de toute opinion inculquée, le quasi‑autodidacte nullement simple, mais délesté à l'extrême, se méfiant instinctivement de ce que les livres qu'il feuillette, les musiques qu'il lui arrive d'entendre, les peintures sur lesquelles se posent parfois ses yeux ajoutent à la nudité des choses, indifférent aux grands événements des gazettes, sans préjugé dans tout ce qui touche à la vie des sens, mais aussi sans l'excitation ou les obsessions factices qui sont l'effet de la contrainte ou d'un érotisme acquis, prenant la science et la philosophie pour ce qu'elles sont, et surtout pour ce que sont les savants et les philosophes qu'il rencontre, et levant sur le monde un regard d'autant plus clair qu'il est plus incapable d'orgueil. Il n'y a rien d'autre à dire sur Nathanaël."

Há: exaspérant. A liberdade e a independência - ainda por cima sem orgulho - são exasperantes. Eu sei, por experiência.

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É muito difícil encontrar uma hospedeira (ou hospedeiro) da TAP mais simpáticos do que qualquer outro. Salvo raríssimas excepções o pessoal de cabine de companhia é de uma simpatia estratosférica. Esta vez foi uma excepção: uma das senhoras era ainda mais simpática, sorridente, afável do que o habitual. Nem me lembrei de que tínhamos saído com uma hora de atraso.