15.12.16

Diário de Bordos - Tri-Rail entre West Palm Beach e Miami, EUA, 15-12-2016

Escrevo do comboio que me leva ao aeroporto de Miami. Daqui a pouco mais de quinze horas estarei em Lisboa. Não sei que dizer do que me espera: um período negro com uma grande luz ou uma grande claridade com um poço no meio?

Pouco importa. Ed do F.C. veio trazer-me à estação. Foi um adeus de marinheiros: "Ciao, até um dia destes". "Ciao". "Obrigado por tudo". "Obrigado eu". Um aperto de mão, as portas do carro fechadas. Detesto grandes despedidas, lenços brancos a acenar, corridas atrás do comboio, abraços que mais não fazem do que prolongar a dor que as despedidas todas são. A página West Palm Beach virou-se. Pode ser que a reabra - o conto de horror do qual é parte ainda não acabou - mas para já está fechada. Ponto final.

Parágrafo.

Concentro-me na claridade que me espera. O negrume é cego e mudo, desinteressante. Tenho a certeza de que o tempo demonstrará que tive razão, que a minha opção foi a boa. Não sei. Sempre vivi na incerteza. A certeza virá no caixão.

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O comboio teve uma avaria. "Vamos tentar chegar o mais longe possível para Sul. Acabamos  de perder um motor", diz o altifalante num tom cordial, como se estivesse a dizer que se esgotou o stock de limonada. Na estação diz "Este é o comboio que vai para Sul, blablabla. Não temos ar condicionado, caso não queira embarcar". Para um indígena a vida sem ar condicionado é inconcebível, como um inferno sem chamas.

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De volta ao aeroporto de Miami. Um dos meus ódios de estimação, desta vez largamente atenuado porque vou na TAP para Lisboa. E com o atraso no comboio vou lá passar menos tempo do que tinha previsto.