3.1.17

Diário de Bordos - Lisboa, 03-01-2017

O insuportável calor de inverno regressou. Graças à chuva, claro. Não há mal que não tenha bem atrás ou ao lado.

Este de hoje é terrível: por mais que me dispa (salvo seja, claro) continuo a transpirar. Assim não há desodorizante que aguente. Verdadeira tragédia, este calor. Ao menos com o frio...

Não sei. Pouco importa. Alguém lhe encontrá decerto uma vantagem associada. Eu, por exemplo: relembrou-me de que há coisas bem mais importantes do que gelar, tantas e tanto. Da importância de um bom édredon. De que a vida não é só calores.

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Venho a uma biblioteca requisitar um livro que já quase soube de cor. Chama-se Os Passos em Volta, é de Herberto Hélder e um dos livros da minha vida. Descobri-o aos vinte ou vinte e um anos, pela mão do António Cabrita. Eu vinha da África do Sul, daquela mistura de mansões chiques e bares de putas sórdidos que frequentava em Cape Town, de cinco dias de coma num hospital da Namíbia (então ainda sob administração alemã, graças a Deus), de muitas coisas e não sabia bem para onde ia.  Os Passos deram sentido a isso tudo e a muito mais. Lê-los no Povo vai ser provavelmente o fechar dessa volta que começou há quase quarenta anos.

E espero que o princípio de outra.

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A acqua bassa continua, violentíssima, sem fundo e interminável. Tento - e consigo - não ceder à auto-compaixão. Penso que tenho o que quero ou pelo menos que o que não tenho é consequência do meu não-querer, coisa que tantos não podem dizer; que não estou sozinho, tenho amigos - idem - ; que em breve terminará. Por violenta que seja terá fim. Um homem é um homem e quem só sabe ver ao perto não é homem, é bicho.