5.1.17

Excertos de um diário fictício

As portas do dilúvio abriram-se mas o dilúvio enganou-se e saiu nevoeiro. Ontem (ou hoje de manhã) A. dizia-me que o nevoeiro traz, não leva; eu perco-me no nevoeiro. E perco tudo. Em terra o nevoeiro é bonito: escondendo o que está longe força-nos a olhar para o que está próximo. Ou para o que foi mas ainda está porque o que está fica, como também hoje à noite disse eu, passe a auto-citação. Bom. Interessa pouco. Dos bancos de névoa cerrada da Namíbia aos de menos cerrada mas mais próxima de Lisboa; da névoa do Mar do Norte, odiosa porque habitada à do Mediterrâneo, amável porque efémera todas as brumas são horríveis e belas.

Esta noite não sonhei; se tivesse sonhado ter-me-ia passeado pelas brumas de Sintra, da Praia das Maçãs, da Praia Grande, das Azenhas do Mar. Ou teria ido para os lados da Margem Sul: Alcochete, Montijo, Seixal, de que tanto gosto e no qual tanto sonhei.

Não gosto da bruma porque não vejo longe, gosto dela (quando estou em terra) porque me obriga a ver melhor o que muitas vezes não vejo por demasiado próximo; porque me fez, como hoje, dizer coisas que estavam escondidas e soterradas e postas de lado na bruma da memória (lá está) e graças a ela (bruma) viram a por assim dizer luz do dia, porque a há. Há luz e há dia, note-se. Mesmo que fosse um eclipse haveria dia e luz, se não agora daqui a pouco. Daqui a pouco é a palavra chave: falta pouco.

Falta pouco.

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O aquecimento global continua a fazer-se notar, sobretudo ao nível do arrefecimento local. É assim como "poder autárquico versus poder central" (mas sem os milhões do Costa, claro).

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De escantilhão. Talvez seja assim que se sonha: de escantilhão. Ou se fala, se escreve, se pensa, se sorri. Cada sorriso são milhões de outros sorrisos que se escondem por detrás do que se está a ver, como as palavras que se escrevem ou dizem. Cada uma esconde mil e de repente aparecem todas. De escantilhão. É preciso andar de roda delas, dar-lhes a volta, dar-lhes pontapés. Nada de ternuras. Sobretudo nada de ternuras com as palavras. Tratá-las mal. Sufocá-las como elas nos sufocam.

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Foi assim que tudo aconteceu. Já aqui um dia o disse e o que aqui digo não é dito para o boneco, ou porque sim. Foi assim: alguém bateu no casco. Abri a escotilha e no pontão estava uma interminável fila de palavras. Mas eram todas feias, não havia uma bonita. Fiz de porteiro de discoteca e comecei a seleccioná-las. As que deixava passar estavam todas contentes. As outras gritavam: "Censura! Censura!" Mandei-as para o caralho (esta era uma das palavras que deixara entrar momentos antes).

Fechei a escotilha e fui para a cama com as palavras que tinham entrado. Todas ao mesmo tempo. Foi uma orgia indescritível. Imaginem: eu - velho, gordo, careca, surdo, feio - único macho no meio de não sei quantas palavras esfomeadas. Acordei exausto, claro. Elas tinham-se ido todas embora.

Uma delas ficou para trás. Era "chato". Como em "És um chato". Pu-la fora, também. Bilhete de desembarque. Os únicos chatos admitidos a bordo são os bichos.

(Para a M. M., surpreendentemente)