5.2.17

Diário de Bordos - Genève, Suíça, 04-02-2017

A ideia original é ser capaz de contar o dia sem demasiada pieguice. Vai ser difícil, eu sei, pelo menos depois das cinco da tarde. Antes não aconteceu nada: adiantei a escrita, improvisei uma omelete rápida para o almoço, dormi a sesta. Às cinco saí para casa do Th. e da A., a pé. Parei no Marchand para beber um copo. Até aqui nada de especial. Devo ter deixado de lá trabalhar em 1986 ou coisa que o valha. Abordei-o com mais curiosidade do que emoção.

Não vou descrever o jantar (vitello tonatto, plâteau de fromages, bortsch, tranche de veau pannée e arroz com um molho que não identifiquei porque já não conseguia comer mais, mesmo que quisesse - queria -) nem os vinhos (um espumante italiano "que se bebe como limonada", Th. dixit; uma magnum de Chateau Haut-Marbuzet, uma garrafa de Cornas - syrah varietal do Rhône de que nunca tinha ouvido falar e do qual não deixarei de falar nunca mais -. Duas boas Mirabelle para ver se ajudava os sucos gástricos - sou de natureza altruísta -).

E conversa, muita conversa. Um dos filhos do casal - N. - estava lá e foi um prazer descobri-lo. Os cães e os gatos (três de cada) mantiveram-se calmos.

A. é uma cozinheira excepcional e uma amiga excepcional, alma boa, generosa, empática. Th. tornou-se sábio, arredondou os ângulos e manteve-se o homem generoso, tranquilo, pacífico, modesto e competentíssimo que sempre foi. É a antítese do self-made man que é. Deve a fortuna que tem única e exclusivamente a si próprio e disso não faz alarde - nem da fortuna nem do seu mérito a fazê-la -. Partilha-a com os amigos em forma de tudo o que há de melhor, ajuda muitos e irradia harmonia.

Não sei o que vai sair do que escrever. Espero que não seja uma merda. Mas se for uma coisa é certa: não tenho desculpa.