1.2.17

Diário de Bordos - Lisboa, 01-02-2017

Por muito inglês que me sinta quando em Londres estou num pub ao fim do dia a beber uma ale, ou americano quando como um hamburger numa casa decente como a de West Palm cujo nome me escapa; ou francês quando vou ao Chez Janou em Paris ou ao Cana'bar ou ao Vin des Rues; ou em Espanha a tapear ao fim da tarde e percebo estas gentes todas porque viajo para trabalhar e durante o dia estive com eles, esse dia e os outros todos que já foram muitos em muitos sítios e por isso me sinto de onde calha estar. Por muito que... nada chega aos calcanhares do português que sou quando como um cozido numa tasca e bebo meio de tinto e remato com uma bica e uma amarelinha caseira (quando a há, que os cabrões da ASAE andam aí a ver se fazem disto um paraíso asséptico, anódino, indiferente).

Não sou patriota, porque pátria é uma coisa esquisita, um acidente histórico e geográfico, político e social que me diz pouco. Sou português; é muito melhor, mais difícil, profundo e perene.

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Perguntei ao senhor que vende castanhas à frente do Avenida Palace - um senhor que inspira imediatamente confiança, comprar-lhe-ia castanhas de seguida se gostasse de castanhas - e ele disse-me que o melhor a engraxar sapatos ali na zona é o "Surdo, à frente dos Correios". Não sei se é o melhor; sei que é muitíssimo bom e que deve ser difícil encontrar quem o bata; com a vantagem adicional (para mim, claro; ele deve ter uma opinião diferente) de ser surdo e provavelmente mudo - o preço, ao fim de uma cuidadosa e meticulosa engraxadela, é indicado por meio de um pequeno papel plastificado -; ou seja, não há conversas sobre o golo de ontem, o que fez ou disse o presidente de um clube hoje (só conheço o nome de Pinto da Costa, um ser que à primeira vista me é profundamente repugnante e à segunda também). O serviço é feito com competência, concentração e dedicação total. Os sapatos estão prontos para afrontar o mês de paragem que os espera.

Enquanto ele me engraxava os sapatos eu observava os transeuntes. Só um homem, de entre as dezenas que passaram tinha sapatos de engraxar. O resto era tudo aquelas abomináveis sapatilhas. Acho uma pena que se deixe desaparecer uma profissão tão necessária, importante, estruturante mesmo, se pensarmos a cidade como um todo. Para não mencionar o mau gosto, claro. Sapatilhas são para jogar ténis ou correr, não são para andar na cidade.

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Hoje à noite avião. Já me estava a parecer muito tempo, um mês e meio sem pôr os pés num. Felizmente é curta a viagem e à chegada tenho uma filha à espera. (Cada minuto vai contar por dois, eu sei; porém uma vez lá o tempo terá passado a voar).

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Levo um monte de livros portugueses para ler. É desta que me vou pôr em dia com a literatura portuguesa recente.