14.3.17

Fátima - I

Vamos ao que interessa: quem se atirou primeiro foi ela. De certa forma percebo-a: a noite estava chata como um jantar sem sedução. A analogia é fraca: era um jantar de casais; as mulheres há muito perderam a vontade de seduzir fosse quem fosse e os homens eram demasiado estúpidos ou estavam cansados de mais para falar doutra coisa que não fosse futebol.

Ou seja: fui, uma vez mais, vítima inocente do meu desdém pela bola e da minhas incapacidades diversas: conversar, misturar-me, ser como toda a gente. Vamos chamar-lhe Fátima, é um nome bonito que justifica peregrinações.

As minhas obrigações - auto-impostas - consistiam em dizer à Isabel (a dona da casa) que o jantar estava óptimo (meia mentira), responder vagamente a quem me perguntava onde vivo ou o que faço e esperar sem impaciência que o tormento acabasse.

Quem atacou foi ela. Magra - demasiado magra, pareceu-me - mamas grandes, casada com um rapaz simpático e palerma que dá aulas num liceu qualquer e vota PS porque o cachorro votaria também, se votasse. Há muito tempo que deixei de responder aos ataques de gajas chateadas com a vida, mas havia ali uma série de combinações às quais não fui treinado para resistir.

Que se fodam os antecedentes. Estávamos num jantar chato como uma mulher sem mamas, quatro ou cinco casais todos iguais e transparentes e eu. Uma das senhoras atirou-se a mim. Em princípio não deveria sequer ter notado, mas ela tornou aquilo impossível: posso resistir a tudo menos à uma miúda magra de mamas grandes, sorriso aberto como um hospital ou um bordel, inteligência acima da média e sentido de humor em forma daqueles cilindros que antigamente víamos a trabalhar no alcatroamento das ruas.

Não sei dizer não a uma mulher que me diz sim (verdade seja dita às outras não é preciso dizer nada). Fátima era um sim gritado da ponta dos cabelos à dos pés. Isto é.

Fátima era um pedido de socorro de um metro e sessenta e cinco e eu ajudei-a, é tudo.

(Cont.)