31.3.17

Ranho

- Está uma noite viscosa, horrível, não sentes? As coisas agarram-se à pele, escorregam devagar, peganhentas.
- Que coisas? Referes-te a mim? Às minhas coisas?
- Não. Deixa-as estar onde estão que estão bem. Refiro-me a tudo. Às memórias, ao futuro, às palavras, à noite, o sono, os sonhos... Tudo.
- Talvez sejas tu que te agarras à noite e escorregas viscoso por ela abaixo, como ranho espesso numa parede de vidro fumado.
- Sim. Talvez eu não saiba o que fazer com esta substância que me sai das tripas a que tu chamas ranho e não é,  é muito mais, mistura de meia dúzia de memórias e meia dúzia do que está a chegar e não chega, não há maneira, é demasiado viscoso, não ata nem desata.
- Dorme. Amanhã não existes.