31.3.17

Luz

Se a vida se parecesse com alguma coisa parecer-se-ia com um circuito de bicicleta numa serra: apesar de um gajo voltar ao ponto de partida - e ter portanto subido a mesma quantidade de metros que desceu, ao milímetro - as subidas foram mais, muitas mais do que as descidas. (Quem diz bicicleta diz ski. Ou a pé...)

Ou seja: o que levamos da vida é uma ilusão, que só não é óptica porque a sentimos no corpo todo. Um logro.

Dormi um terço da minha vida, e desse terço talvez um por cento das noites dormi acompanhado. Talvez mais. Nunca contei. Teria de fazer as contas ano a ano. Semestre a semestre, vá.

Há uma relação escondida entre estes dois factos. Ou melhor, entre este facto e aquela opinião. Relação estranha, esta. Os factos só deviam relacionar-se com factos e as opiniões com outras opiniões. Quem é que quer esta miscigenação, "a quem é que ela interessa?" (Perguntar com ar conspirativo, de quem sabe mas não diz).

(Das noites que passei acompanhado há que retirar aquelas em que tinha bebido demasiado ou estava apaixonado).

Apagas tu a luz, querida, por favor? Ou preferes que seja eu a apagá-la? Não é para fazermos amor às escuras, bolas. É para dormimos. Gosto demasiado de ti, percebes? O amor dá cabo do sexo. Transforma-o numa cerimónia religiosa, uma espécie de missa. Este é o meu corpo, tomai e comei. Este é o meu sangue. Tomai e bebei. Detesto missas. Troco todas as hóstias do mundo por uma das tuas mamas numa das minhas mãos. Faria as duas nas duas. Para não falar do cálice, do tabernáculo, do ostensório, dessas coisas todas que misturamos numa liturgia arfante, nocturna, diurna - sim, também contariam, se me desse ao trabalho estúpido de contar quantas noites dormi acompanhado, quantos dias -.

Que se lixe. Estávamos a falar da luz, não é?

Apaga tu. Eu adormeço com ou sem ela.

Ouve. Ouves-me? Gosto muito de mulheres, mas tento não gostar. Tudo aquilo de que gosto desaparece. Mais vale não gostar.

Imagina-te numa igreja, no coro. Estás encostada ao balcão, olhas para o presbitério, para o altar, para as talhas, lembras-te de quando eras miúda. Sentes uma pila tesa contra as nádegas. Está frio. Tens saia e collants e cuecas, sei lá. De repente isso está tudo no chão. Perguntas-me "e se vem alguém?" "Não faz mal. Ele está a ver e avisa-nos". "Estúpido". Depois fizeste "Aaaah" e toda a igreja ressoou.  Como se fossem os sinos a tocar mas mais baixo e contínuo.

"Vou começar a chamar-te Teresa d'Ávila" digo-te cá fora. "Estúpido". "Ainda bem que a igreja estava vazia". "Não estava. Entrou uma senhora para rezar. Mas era tarde de mais. Estava quase na hora da comunhão". "Não a vi". "Não perdeste nada. Era feia".

Eras tão bonita, não eras? Com esses cabelos pretos curtos, olhos verdes muito grandes, mamilos que te ocupavam quase metade das mamas, pernas curtas nem demasiado gordas nem demasiado magras. "Era feia".

Gosto de mulheres bonitas que se sabem bonitas. Arrogantes porque querem e podem.

Lembras-te daquele dia no lago, alugámos um kayak e acabámos dentro de água agarrados à borda daquilo, dava voltas e mais voltas...

Apagas a luz, por favor? Na margem havia um gajo que nos esperava, dentro do carro. A água estava fria.

"Que se lixe. Não importa. Despacha-te". Não me despachei. "Até ficaste arrepiada". "Foi por causa da água, parvo ". Já foi há muito tempo, não foi?

Foi ontem. Apaga a luz.