24.5.17

Diário de Bordos - Aguadulce, Andaluzia, Espanha, 24-05-2017

A característica mais bonita da ignorância é poder terminar. Isto é, a ignorância nunca termina; mas a cada coisa, pequena que seja, que aprendemos recua um passo e esse passo atrás é das coisas mais bonitas, mais comoventes que conheço.

Desta foi a vez de descobrir um concerto para piano de Grieg. Até agora declarava, do alto da  minha ignorância, que não gosto do romantismo na música, com a excepção matizada de Beethoven (e também que duvido dos take away).

Pois hoje precisava de um sítio para escrever uns mails - que ainda não escrevi, de resto, mas não tardam - e estava com uma pequena fome, fome pré-prandial, fome-aperitivo e entrei num take away. Comecei por pedir umas tapas de almôndegas. Estavam para lá do muito bom. Seguiram-se-lhes um filete de frango. Idem. Um cozido (tudo isto sempre em tapas e acompanhado por cerveja, obrigado aos comprimidos, outra descoberta).

Tantas coisas inéditas e tão boas mereciam outras, que instilassem um bocadinho de dúvida e desassossego nesta manhã quente e preguiçosa (não totalmente: lavei o meu fato de mar) e achei que devia ouvir qualquer coisa que não conhecesse e da qual à partida não ia gostar. Calhou-me um concerto para piano de Grieg (a quem possa interessar: Klaverkoncert A-mol op 16 (1868) Edvard Grieg - Alice Sara Ott - DRSymfoniOrkestret-T. Dausgaard).

A ignorância quando recua fá-lo por vezes docemente; outras com estrondo, esmagadora. Hoje foi destas.

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É um todo, claro: ontem lavámos o bote, hoje lavei o meu fato de mar, está calor (se bem no take away esteja fresco, o ar não está muito forte, está sensato, inteligente, dá para perceber o calor mas não o sentir demasiado) a comida estava sublime, a cerveja... A cerveja. Graças aos comprimidos perdi o hábito funesto de não beber cerveja, ou pelo menos o ainda mais funesto de a beber com moderação. Aquelas duas pílulas diárias acabaram com isso.

Um barco lavado fica mais feliz. Não sei se já repararam nisso (pelo menos aqueles dos meus simpáticos leitores que navegam): um barco limpo fica contente e leve, sorri, fala-nos de outro modo. Efeito da esfrega, suponho.

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Nada disto me devia fazer esquecer que estou aqui parado por causa do maldito Levante, mas faz.