7.7.17

Navegações

Imaginemos um corpo e tracemos na sua superfície linhas longitudinais - que num globo terrestre seriam chamadas meridianos - e transversais (paralelos).

Imaginemos agora esse corpo deitado ao nosso lado: digamos que os meridianos são o tempo que passou e os paralelos o que há-de vir. A navegação torna-se uma questão de tempo, de cronologia. Hoje estou aqui; amanhã estarei ali.

Imaginemos que esse corpo nos ama e que a embarcação na qual o navegamos se chama Amor. (É um nome banal mas adequado). Não se pode sem amor navegar um corpo durante muito tempo dado os seus inúmeros meandros; um corpo é um mundo. Sem um barco estamos confinados à nossa ilha. Com um barco descobrimo-lo; se esse bote se chamar amor o mundo refaz-se, como as peças de Mikado que saíram do jogo e esperam pacientes e arrumadas o próximo jogo.

Bom: chegados aqui temos de optar entre os caminhos da pieguice ("O amor é um pássaro azul no alto da madrugada", por exemplo) e os outros. Outros fica indefinido: a pieguice é um planeta àparte. Tudo o que não é pieguice é válido, incluindo a retórica (excepcionalmente).

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Falávamos de um corpo deitado ao nosso lado e de um barco que nele nos leva a navegar. O barco chama-se Amor.

O corpo és tu.

(Para a C., que sabe mais de navegações do que eu).