10.8.17

Diário de Bordos - Cannigioni, Sardenha, Itália, 10-08-2017

A comparação é injusta, eu sei. Mas a última vez que isto me aconteceu foi em Moustique faz para ai uns cinco anos: saí de bordo a pensar "que se foda o bote".

Não sei se conhecem Moustique: é uma ilha linda onde músicos como Eric Clapton e Mike Jagger tinham ou têm casas. Estou a inventar os nomes mas não o nível. Tem um bar que é para mim (e mais dez milhões de pessoas) um dos melhores do mundo. Diz a lenda que os Clapton e Jagger desse tempo faziam ali por vezes jams legendárias - o que de resto é adequado à lenda. Que seria de uma lenda sem jams legendárias?)

Uma vez tive um grupo particularmente complicado de clientes. Normalmente Moustique era o meu único momento de descompressão: os clientes iam de excursão ver a casa do Jagger e da Rainha de Inglaterra e quejandos e eu ficava no Basil's a beber Piñas Coladas  (assim mesmo, no plural múltiplo).

Um dia uma delas voltou antecipadamente do passeio, era gorda, feia e estúpida e pediu-me para a levar a bordo. Para além de beber Piñas Coladas eu estava a escrever disparates - as duas coisas estão frequentemente juntas - e respondi-lhe com um simples e lacónico "Não".

Não. Hoje não estou a bordo. Comi as melhores lasagne da minha vida, à qual se seguiu uma sublime costeleta de vitela à Milanesa que só não é a melhor porque não me lembro das anteriores, bebo um excelente vinho local e quero que o bote se foda, se me for permitido falar assim.

Comprei presentes para a minha namorada - ser skipper de uma embarcação de charter não nos transforma imediatamente em selvagens - vim jantar sozinho e feliz apesar da distância que me separa da dita namorada e se alguém agora me pedir alguma coisa a resposta é simples: não.

Não porque sim; há melhor razão para um não?