20.8.17

Raquel (fragmento)

- Amo-te.
- Oh homem, cala-te que me fazes perder a tusa.

Raquel era uma judia pequenina, bonita e loira, de olhos azuis que fazia uns broches memoráveis e fodia sofregamente, desde que eu não lhe falasse em amor ou qualquer outro sentimento.

Desenvolvera uma teoria para as felações baseada no filme Garganta Funda: "para uma mulher te fazer um bico como deve ser tem de imaginar um clitóris na boca", dizia. "Isso da garganta é exagero de pornógrafo. Na boca chega perfeitamente. E depois executar a coisa em função da localização desse clitóris imaginário. Assim tem a vantagem adicional de se vir ela também, não serem só vocês".

Raquel era economista. Vivia com o marido, um homem calmo e manso e com um filho adolescente num dos bairros chiques da capital. Era um daqueles casais em que cada um atraiu o outro por ser o seu oposto. Com o correr dos anos as oposições desgastaram-se e nada as veio substituir.

Hoje veio dormir a minha casa. Diz ao marido que tem uma reunião no Porto e vai de véspera.
- Não tens medo que o teu marido um dia telefone para o Porto? - Raquel trabalhava num dos grandes bancos nacionais.
- Ele não o fará nunca, não vá alguém dizer-lhe que não estou lá.
- Porque é que não te separas dele de uma vez por todas?
- Lembras-te daquele periquito muito bonito que vimos no outro dia na mercearia do senhor Zé? Não achas que o devias comprar? - Nunca fui com ela a lado nenhum: quando nos víamos vinha ter a minha casa e nunca saímos juntos. Um dia perguntei-lhe se queria jantar a um restaurante comigo e respondeu-me "Que pensas do jogo do Benfica de hoje?"

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Não prometo responder a todos os comentários, mas prometo que fico grato por todos.