8.9.17

Diário de Bordos - Cascais, Portugal, 08-09-2017

Está uma noite linda, muito calma, vento Norte mas fraco, o barco em bom estado, limpo, tudo funciona, o arrais é porreiro e eu estou com o telefone desligado porque não tenho muita bateria mas ligo-o só para dizer isto: está uma noite linda, muito calma e por aí fora. Estou para norte de Aljezur, não sei o nome da terra da qual vejo as luzes, mesmo à direita do trilho da lua no mar que ainda está um bocado alaranjado. Na amura de estibordo vejo o farol do Cabo Sardão e o meu cotovelo de vez em quando - largamente de vez em quando - tenta lembrar-me que existe mas eu não lhe ligo peva. Um sacana que me fez a cena de ontem não merece consideração nenhuma. O motor parece um relógio suíço e o armador era uma simpatia. Vi-o talvez três minutos, se tanto.

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E agora cheguei, vim comer um hambúrguer ao Skipper e aproveito de caminho bebo um rum ou dois. A marina continua na mesma, dizem-me pessoas e vozes: a marina mais mal gerida do hemisfério ocidental, um santuário de incompetência, coio de incapazes numa localização que desmente aquela máxima do imobiliário: localização repetida três vezes.

Estou-me ligeiramente nas tintas. Tudo tem remédio e o que não tem remediado está. Agora o objectivo é fechar Outubro, que está aberto escancarado. E fechar-me a mim, que estou pior ainda e só na quinta-feira tenho médico.

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As minhas viagens de inspecção turística dos hospitais do país continua. O último foi o de Évora. Se alguém conhece um Tripadvisor para hospitais é favor dizer. Sei lá, Sickadvisor, por exemplo.

Aborreço-me, chateio-me, espumo ainda mais porque isto nada tem a ver com nada se não a minha negligência.

O hospital foi porreiro. Em menos de duas horas tinha uma receita para duzentos e cinquenta medicamentos e uma sugestão: "vá à faca". É frequente os médicos pensarem que a minha negligência comigo próprio tem a ver com o medo. Não tem. É simplesmente uma lacuna do meu egocentrismo, associada a uma total ausência de hipocondria.

Talvez no fundo seja simplesmente mais doente e menos narcísico do que sempre pensei.

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O Soggy Dollar está quase destruído, vi uma fotografia. Sorte o Painkiller ser património imaterial da humanidade...