17.11.17

Diário de Bordos - Lisboa, 17-11-2017

Eu gostaria que daqui não se inferissem coisas que daqui não se podem inferir, mas parece-me irrefutável: só há dois tipos de estabelecimentos em que as funcionárias são todas e sempre bonitas - os bares e as bibliotecas. E quando não são parecem -.

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Coisas que explicam porque amamos e detestamos Portugal simultaneamente e é impossível ser doutra maneira: vou de bicicleta da estação para o hospital de Cascais. A menos de quinhentos metros do dito aparece-me uma autoestrada - com sinal de proibição de velocípedes e outros veículos de tracção animal e tudo -; procuro alternativas, não as encontro mas vejo que pouco à frente volta a ser uma estrada normal e ooops, toda a força avante. Quase a sair do (curtíssimo) trecho de autoestrada oiço as sirenes de um carro de polícia, que me diz para encostar. Antes de poderem sequer abrir a boca desfio-lhes a ladainha (aparecem-me num instante, seja Deus louvado, sobretudo quando coincidem ponto por ponto com a verdade): que vou para o hospital, que a consulta é já dali a bocadinho, que procurei alternativas, que por aí fora, tudo isto num fôlego só e sem dar oportunidade aos senhores agentes de fazer outra coisa se não ouvir.

Quando acabo os homens dizem-me "Bom, você vai para o hospital? Ponha-se aí à nossa frente" e escoltam-me até à saída. Lá chegados eu estou a derreter de agradecimentos e de pensar "isto é incrível! Que simpáticos!" e um deles pergunta-me "Vai para as urgências?" "Não. Vou, para as consultas normais". "Ok, então vá que lá estará um colega nosso para lhe pedir a identificação". Comecei a ver a vida a andar para trás e a carteira tão vazia a esvaziar-se ainda mais, claro.

Isso é esquecer que estamos em Portugal, graças sejam dadas à Santíssima Virgem de Fátima. Passei mais de uma hora no hospital e não vi nem a sombra de um polícia.

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Em contrapartida vi que a porcaria do cotovelo não vai voltar ao sítio assim tão depressa ou facilmente como tenho vindo a pensar, coisa que me aborrece um bocadinho, por assim dizer.