27.12.17

Diário de Bordos - Lisboa, 27-12-2017

O restaurante tem uma iluminação péssima, cadeiras piores, é triste, solitário e completamente adequado ao meu estado de espírito. O prego é bom (melhor seria se não fosse) e barato, o serviço rápido, atencioso - às vezes até simpático -. Venho cá jantar de vez em quando, fica a caminho de bordo e não faz muito sentido quando se está sozinho e teso ir a um sítio caro e bonito. 

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Continuando na gastronomia de alto nível: estão muitos espetos ao lume. Um deles sairá bem. Dito de outra forma: de todas as bolas no ar uma delas cairá na mão. Ou: de cem tiros um acertará no alvo.

Se este tiver sido bem escolhido, claro.

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A sorte dá muito trabalho, toda a gente sabe. O azar também.

Ou mais: é preciso trabalhar para os dois, o azar que foi e a sorte que há-de ser.
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A vida em terra: ver as previsões meteo e olhar também para as da chuva.

(Lembrar-me do Senhor de Castilho: pronunciar "mete-o". Nunca se vive em terra: está-se em terra de passagem, como quem procura um quarto de hotel numa cidade cheia por causa de um congresso).

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"Não quero ser a única", diz-me A. I. Nem eu quero que tu o sejas, minha querida: ninguém pode acumular tantas unicidades.

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A minha estadia no F. está quase a chegar ao fim. Em breve vai saracotear-se para outros. Espero que quem o veja saiba apreciar-lhe a elegância tão bem como eu.

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Os nossos partidos preparam uma chapelada; o governo quer salvar um banco com a massa da Santa Casa, que mal ou bem lá vai funcionando. Hesito entre John Huston, Raoul Walsh ou Ed Wood como realizador para esta desgraça. Uma coisa é certa: Hitchcock não seria de certeza. Não há suspense, tudo é esperado.